ESCREVER É DIVINO!

ESCREVER É DIVINO!
BONS TEMPOS EM QUE A GENTE PODIA VOAR. ERA MUITO BOM SER PASSARINHO.

CAMINHOS DE UM POETA

CAMINHOS DE UM POETA
Como é bom, rejuvenescedor e incentivador para o poeta, poder olhar para trás e ver toda a sua caminhada literária, lembrar das dificuldades, dos incentivos e da falta deles, da solidão de ser poeta e do diferencial que é ser poeta. Olhar para trás e ver tudo que semeou, ver uma estrada florida de poesias, e dizer: VALEU A PENA! O poeta vai vivendo, ponteando, oscilando, e nem se dá conta da bela estrada que escreveu. Talvez ele não tenha tempo porque o horizonte o chama, e o seu norte é... escrever... escrever... escrever. Olho hoje para trás... não foi fácil, mas também ninguém disse que seria. E eu sabia que não seria, ser poeta não é fácil, embora seja lindo. Contemplo a estrada que eu fiz, e digo com orgulho quase narcisista: Puxa... como é linda minha estrada!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

UMA SEMANA DE CRIANCICE- HOJE NÃO TEM MERENDA


(imagem alcobaca.bahia.net)
A merenda seria salada de frutas, que eu adorava. Os próprios alunos levavam as frutas. Eu só levava abacate, porque lá em casa tinha no quintal. A professora achava engraçado eu colocando aquele abacatão pesado na mesa. Antes de irmos para as salas, ficávamos no pátio aguardando a hora do hino nacional. Dona Eva era responsável por nós no pátio. Eu e um coleguinha de outra turma, brincávamos de jogar uma taruíra morta no outro. Dona Eva falava. “Menino, larga esse bicho nojento”. A gente nem ouvia. “Parem com essa correria que hoje o diretor tá que tá”. Boazinha ela. O diretor era ruim. Feio pra danar. A gente ficava arremedando ele andar quando virava as costas. Um dia se virou de repente e quase me flagrou. Nessa de taruíra pra lá, taruíra pra cá, teve uma hora que joguei e o danado do menino se esquivou. E onde foi parar a taruíra? No panelão de merenda. A cozinheira mexia a colherona e falando com sua ajudante, não viu. O menino sumiu. Fiquei entalado, travado. “E agora? Conto ou não conto? Se contar, vou pegar suspensão. Ai, ai”. Sentei na escada pensando numa solução, tinha que fazer algo. “Já sei. Entro lá brincando e derrubo a panela. Mas não dá. Tenho que pular a mureta, a portinha está sempre fechada e todos vão ver”. Até que deu a hora do hino. Que hino nada. Eu estava é rezando. “Ai, meu Deus. Não deixa me acontecer nada. Me ajuda de novo. Mostra uma solução, prometo não aprontar mais nada”. As duas primeiras aulas eram de português, depois o recreio e dona Marli, me cobrava mais atenção, que estava muito distraído, dando respostas sem nexo. . Claro, minha cabeça estava na panela de merenda. Tenso, suando frio, tentando pensar em algo. “Vou pedir à professora para ir ao banheiro e falar pra cozinheira, mas pedindo que não conte a verdade. Que invente algo, que tem algo azedo sei lá., ou até que a taruíra caiu do teto. Ele deve aceitar, afinal é amiga de igreja de minha mãe”. Logo desanimei. “Ah, não. Essas ‘véias’ de igreja, não gostam de mentira. Minha mãe mesmo é uma. Preciso pensar em outra coisa, nem que seja mesmo pra derrubar a panela”. Certo momento, lembrei de um caso que ouvi alguém contar de uma taruíra que caiu no coador de café e matou uma família inteira envenenada. Sei lá se é verdade, mas o desespero aumentou. “Vai morrer todo mundo e o culpado sou eu. Preciso avisar a cozinheira de qualquer jeito. “Levantei o braço. “ ‘fessora. Posso ir no banheiro?”. “Pode não. Só faltam quinze minutos pro recreio, você pode aguentar. Não vem me enrolar”. Insisti, mas ela não deixou. Pensei em sair assim mesmo, mas eu podia ser bagunceiro, desobediente não. Mãos trêmulas, suadas, inquietas. “E se a cozinheira comeu? Já morreu. Elas sempre comem antes da gente”. Imaginei a cozinheira estirada no chão. Agora não tinha mais jeito. Fui à frente, puxei vestido de Dona Marli.”Se a senhora não me deixar ir ao banheiro, vai acontecer uma tragédia”. A sala toda riu, pensando que eu estava com dor de barriga. Apesar que já quase estava mesmo. Pus as mãos juntas. “Pelo amor de Deus, ‘fessora. Deixa”. Ela assustada. “Menino, você está com algum problema?”. Comecei a chorar. Um problemão, ‘fessora... sem querer joguei uma taruíra na merenda”. “Ai, meu Deus”. Saiu em disparada, se equilibrando nos tamancos e eu atrás. Eu queria ver se a cozinheira estava bem. A coitada sentou com a mão no coração aliviada. “Eu ia comer agora.. O que esses pestinhas não fazem? Chamem o diretor”. Deu o sino de recreio, o pátio logo se encheu de meninos fazendo fila. Com muito custo, o diretor conseguiu silêncio e falou. “Hoje não tem merenda. Por causa de dois irresponsáveis que jogaram uma taruíra na merenda”. Zum zum zum. Quase todos vaiaram. Pedindo silêncio de novo, anunciou. “E por isso, estão liberados, podem ir pra casa”. Alegria geral. Menino não vale nada. Falou que não tem aula, vira festa. “Vocês dois. Direto pra secretaria”. Depois de um grande sermão de palavras rudes para nós, tão meninos, nos deu três dias de suspensão. Deve ser por isso que hoje tenho tanto nojo de taruíra. Perguntou. “Vocês tem algo a dizer?”. “Eu tenho, senhor diretor. Fizemos errado, mas somos só crianças. O senhor nunca foi criança? Nunca aprontou nada?Nunca quebrou uma vidraça? Nunca roubou goiaba?”. Me olhou curioso e deu finalmente na vida, uma risadinha . “Já, claro que já. Mas não façam de novo. Puseram muita gente em risco”. Mal demos de costas, ele falou. “Teve uma vez brincando de pau na lata, que o pau escapuliu e quebrou a vidraça logo de uma inimiga de minha mãe. Fiquei até de noitinha na beira do rio, tremendo de medo e frio. Minha mãe não me bateu, só brigou muito por eu ter fugido”. Respondi. “Eu faria diferente. Contaria logo pra minha mãe, pois nunca precisei fugir dela. Depois eu venderia picolé e daria o dinheiro a ela. Sou um grande vendedor de picolé, o melhor do bairro”. E ele. “Está certo. Agora vão pra casa. Ah... e vê se para de me arremedar. Pensa que não vejo?”. “Como ele sabe?”, pensei. “E se sabe, ele não é tão ruim assim”.
Na escola, virei o menino da taruíra.

39 comentários:

Elaine Barnes disse...

Que história envolvente Carlos!Se a Anita não fala o que é, não saberia. Conheço como lagartixa tb,rs...Moleques são tentados mesmo, mas, as vezes as traquinagens acontecem sem querer. Quem num aprontou na vida que atire a primeira taruíra! Bjs a dorei, fiquei aqui no trabalho esperando uma ligação viajando nos pensamentos de uma criança apavorada.

(Carlos Soares) disse...

Elaine, você é uma amiga show.obrigado,beijos.

Everson Russo disse...

To começando a achar que o Ziraldo inspirou o Menino Maluquinho em voce...rs..rs..rs...essa da taruira é show de bola, vamos combinar, bem nojenta,,,,rs,,,rs,,,,mas legal, voce como sempre consegue levar a gente a uma viagem ao passado, de uma forma tão sensivel, tão serena, fiquei aqui buscando minhas passagens nas escolas, foi um tempo sofrido,,,,mas muito legal, a vida passa e ficam as memorias...e voce as expõe muito bem...forte abraço e uma belissima semana pra ti...

p.s. to falando, lendo sua resposta a amiga acima...voce explicando a dirferença entre taruira e lagartixa...rs...rs....é Maluquinho mesmo,,,,eu só sei que as duas são terrivemente nojentas...rs..rs...

(Carlos Soares) disse...

Everson,pior foi aguentar as gozações da molecada dewpois. Chegavam dizendo. "Ô Carlos, estou com vontade de matar aula na sexta, você podia jogar uma taruíra na merenda". Ou. "Se você não tiver taruíra, eu trago pra você de casa". Mas eu não apelava.Apelar com molecada é pior. Um abraço

Marilac disse...

Oii Carlos,
Aindo estou sorrindo, que belo texto, e que travessura!!!
Criança é fogo mesmo...rss
Aqui no Ceará também chamamos de lagartixa, eu tenho medo,mas gostava de observa-las.

Marilac

(Carlos Soares) disse...

Marilac,obrigado.Você é um amor.Beijos

(Carlos Soares) disse...

Pois é, querida Graciete.Então me livrei de uma hein?Beijos

Wanderley Elian Lima disse...

kkkkkkkkkkkkk, como eu gosto de suas história, fico imaginando tudo acontecer e dou boas risadas, você é ótimo.
Abração

(Carlos Soares) disse...

Obrigado, Wanderlei. Infeliizmente algumas, até já de adulto não posso contar, mas estou pensando numa forma que não seja agressiva a quem vai ler.Nessa quarta devo postar sobre meu primeiro namorinho.Teve ternura e um final,digamos, apesar de meio frustrante,teve graça também. Alías,sempre foi ma marca em mim.Confusão,com piada e ternura.As confusões em que me metia,né. Um abraço

sandra Freitas disse...

Querido poeta, que delícia encontrar alguém como vc na blogsfera..divertidíssima história..adorei seu blog..vou seguir seus posts, quando quiser vá me visitar ou me seguir..eu as vezes escrevo algumas coisinhas mas sou apenas pseudopoeta..rsrs
Parabéns pela iniciativa em relção a semana das crianças..
Abraços..

(Carlos Soares) disse...

Querida,Sandra. Que prazer ter você aqui. Que bom que gostou. Venha sempre. Claro que vou visitá-la e seguir também. E nada de pseudopoeta.beijos,querida

cristal de uma mulher disse...

Meu lindo que bom que vc existe muito obrigada por chegaeres em meu canto e te eseguirei e tambem te quero alí...meu beijo de luz

(Carlos Soares) disse...

Chegou sutil como verdadeiro cristal.Que bom, venha sempre. Obrigado. Beijos

Luciano Braz disse...

Cara tu era um peste na escola rsrs.

Eu lembro que levava larajas e peras pera escola e passa o recreio inteiro tentando trocar por pão com mortadela, nossa só os meninos burgueses tinham pães com mortadela e tinha que 5 frutas por um pão! Hoje dou doi pães por fruta.


Obrigado por compartilhar destes mometnos tão especiais de sua vida conosco.

ABraço meu caro

Luciano Braz

Fatima disse...

Carlos,
que coisa heim!
Menino danado sô.
bjs.

Bia Maia disse...

Morro de medo de lagartixaaaaaaaaaaaa!
Para mim são mini-jacarés!!!!

Adorei a história!

beijos e linda semana para você!

Biazinha

Úrsula Avner disse...

Olá caro poeta,

criativo e interessante conto que atrai crianças e adultos.
Agradeço o carinho de suas constantes visitas e gentis comentários em meus blogs. Grande abraço.

EDUARDO POISL disse...

Boa história, muito bem escrita.

“Se me convenço que essa vida não tem outra face além da do absurdo, se comprovo que todo o seu equilíbrio depende dessa permanente oposição entre a minha revolta consciente e a obscuridade em que ela se debate se admito que a minha liberdade só tem sentido na relação com o seu destino limitado, então eu tenho de dizer que o que vale não é viver melhor mas viver mais”.
Abraços e um lindo dia para você

(Carlos Soares) disse...

Oi,Úrsula. Meus comentários lá,mais que gentis,são justos.bjs.obrigado

(Carlos Soares) disse...

Valeu,Bia.Beijão

(Carlos Soares) disse...

Viu,Fátima?Você vive dizendo que sou sério demais.Engano seu.Bjs

(Carlos Soares) disse...

Caro Luciano.Pão com mortadela era coisa rara mesmo. Um abração

Gilson disse...

Carlos

Eu gostava do dia do mingau com calda, era meu preferido.
Agora que devia ser engraçado você colocar aquele abacatão na mesa da professora era...rs.rs....

Abraços amigo

Everson Russo disse...

Respondendo sua resposta...rs..rs...com toda certeza, apelar com a molecada e nessa epoca, era bem pior, penso até, que por isso eu nunca tive apelidos na vida, em epoca de escola, o pessoal começava a me chamar disso e daquilo, eu nem ligava, sempre entrava na onda, sem pilhar, eles iam ficando sem graça...rs..rs...era minha tatica....abraços e um belo dia pra ti...

Carlos Albuquerque disse...

Olá, Carlos. Boa tarde!
Mais uma história que me fez sorrir...
Você já pensou em publicar seus textos em livro? Faça, o primeiro vou eu comprar!
Um dia destes, aqui no seu espaço de comentários, vou-lhe falar de uma lagartixa que vive num livro meu - A Irmã.
Aproveito para agradecer seu comentário simpático deixado no Miragem, a propósito de um trabalho meu.
Um abração, xará

(Carlos Soares) disse...

Já sim,amigo e xará.Uma questão de tempo apenas agora. E me conte sim sobre a lagartixa,eu gosto dessas coisas, me divirto muito.essa semana porser das crianças,vou me dedicar a publicar coisas assim.É a semana mais linda que tem no ano.Então volte.Um abraço

Sandra disse...

Meu Querido Amigo.
Vim retribuir e sua visita.
desculpe a demora. Mais as coisas ainda meio turbulentas por aqui.
Fico muito feliz com a sua presença.
Agradeço sempre.
Fique com DEUS.
Vc. é uma pessoa muito especial. Obrigada pelo seu carinho
Sandra.

Anne Lieri disse...

Sensacional sua cronica,Carlos!Mas vc era bem levado,não?Coitada da sua professora...rsss...Adorei seu post!Abraços,

Priscila Lima disse...

boa historia amigo...
obrigada por sua visita em meu blog... suas palavras são sempre carinhosas... obrigada mesmo.
Abraço.
Pri.

(Carlos Soares) disse...

Palavras merecidas,Pri.bjs

(Carlos Soares) disse...

Era sim,Anne.mas gozado que elas gostavam de mim e eu também muito delas.Lembro nome de todas.Jandira,Estefânia,Heloísa,Marli,Janice. E depois, já de adolescente para aulto,tive Gustavo,Luís,Toninho,Zelina.Sempre tive relação legal com todos.Tempo bom.bjs

(Carlos Soares) disse...

Obrigado,Sandra.Você também é muito especial.bjs

paula barros disse...

quer dizer que vc era (é) danadinho? rsrsr

Quantas lembranças com detalhe. Uma história boa de ler, parecia o próprio menino Carlos contando. Me fez rir.

Sempre me faz lembrar algo da infância.

abraços

(Carlos Soares) disse...

rs rs. Sim,Paula. Ainda sou meio danadinho.Não tão inconsequente,mas ainda faço umas traquinagens.Ai,ai,desse jeito vo u ter que alongar essa semana de criancice,porque se for contar tudo, o tempo não vai dar.Tem cada uma.beijos

Vem desfrutar do Amor de Deus disse...

Oi Carlos...
Que coisa boa recordar essa época de infância viu...menino é bicho danado mesmo né? (frase da minha avó) Eu me lembro que uma vez colocquei uma lagartixa no prato de sopa da minha tia...quase a matei do coraçao...só que depois quem quase morreu fui eu...da surra que levei..Na escola eu tambem era bem terrivel, toda semana tinha bihetinho pra minha mãe...e tome surra de novo... mas sabe, eu não me arrependo de nada...faria tudo de novo e quando meu filho aprontava as dele eu antes de bater ou colocar de castigo, lembrava de mim mesma e ai a coisa amenizava pro lado dele...aliás, ele teve muita sorte, porque nunca bati nele acredita? e o bichinho era levado viu.. mas eu tinha dó de bater e por conta disso os castigos eram bem pesados... mas hoje tá ai um rapaz que só me dá orgulho...assim como eu tambem sou pra minha mãe...tenho certeza...To adorando essa semana da criança viu...muito boa a sua idéia...e vamos esperar mais peraltices do sr. Carlos...kkkk
Bjs e linda semana
Marcia

(Carlos Soares) disse...

Valeu,Márcia. A cada dia me surpreendo positivamente sabendo que todos gostam de recordar.Saudade positiva,né.Como disse,acho que terei que alongar essa semana.Você fez bem de não bater no seu filho,eu apesar de tanta peraltice,nunca apanhei e com certeza isso me ajudou muito.bjs

Glória Müller disse...

Com certeza, meu amigo. Pois a infância, é o melhor momento da nossa vida. É por isso que eu ainda carrego comigo uma criança cheia de alegria, com algumas jujubas e muita bala juquinha!Mas, tudo diet, ok?!rs
Bjos
Glória

Majoli disse...

Afff...tenho pavor a lagartixa, e em minha casa, como era uma dessas chácaras enormes e antigas,não faltava nas paredes.

Rindo muito em saber da taruína na panela de merenda e todo o desenlace da arte, rsrs.

Beijos meu amigo.
Maravilha de post.

ROZANA disse...

ADOREI, EU AMO REPETIL TAMBEM.