ESCREVER É DIVINO!

ESCREVER É DIVINO!
BONS TEMPOS EM QUE A GENTE PODIA VOAR. ERA MUITO BOM SER PASSARINHO.

CAMINHOS DE UM POETA

CAMINHOS DE UM POETA
Como é bom, rejuvenescedor e incentivador para o poeta, poder olhar para trás e ver toda a sua caminhada literária, lembrar das dificuldades, dos incentivos e da falta deles, da solidão de ser poeta e do diferencial que é ser poeta. Olhar para trás e ver tudo que semeou, ver uma estrada florida de poesias, e dizer: VALEU A PENA! O poeta vai vivendo, ponteando, oscilando, e nem se dá conta da bela estrada que escreveu. Talvez ele não tenha tempo porque o horizonte o chama, e o seu norte é... escrever... escrever... escrever. Olho hoje para trás... não foi fácil, mas também ninguém disse que seria. E eu sabia que não seria, ser poeta não é fácil, embora seja lindo. Contemplo a estrada que eu fiz, e digo com orgulho quase narcisista: Puxa... como é linda minha estrada!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O SOM DE DEUS


( imagem fisofix.com.br)

O SOM DE DEUS

Tenho observado que de uns tempos pra cá, vem aparecendo de novo passarinhos e borboletas que a gente via antigamente com facilidade. Na minha infância e adolescência não existiam leis duras contra matança e caça indiscriminadas. Nem muita consciência. Era normal menino passar de bornal do lado e estilingue na mão. Eu não. Acho que fui o único menino de minha época a nunca matar um passarinho. Embora meio tardiamente, hoje existem sim, mais leis contra isso e até mesmo uma consciência maior das pessoas, com a natureza em geral. A natureza por si só, sem a interferência do homem, se recupera. E isso nos permite ver de novo pássaros e borboletas. Todos os dias, uma sabiá tem me acordado, cantando no meu quintal. Então me levanto e vou fazer minha caminhada poética. Dia desses, cinco da manhã, ouvindo várias sabiás ao longo da caminhada, me lembrei de caso antigo. Eu era rapazote. Tinha no bairro um louco que andava pelas ruas, o dia todo, cabisbaixo, sem falar com ninguém. Só comigo e mesmo assim, raro. Deve ser porque a maioria ficava lhe zoando. É preciso respeitar a loucura das pessoas. E quando eu podia lhe pagava algum salgado. Não falava direito meu nome. “Ô Caulo, me dá uma coxinha”. Eu nem sabia se ia ter dinheiro e liberava. “Ô, seu Silvestre. Pode dar a ele, pago depois”. Emprego para menor era difícil na época. Quando muito era em boteco e lava-jatos. E a concorrência era grande. Como dizia “seu” Mário. Tinha “mais menino do que gente”. Acabava pagando depois. Sobre o tal louco, era sui generis. Diziam que ele era normal, mas teve um acidente ou doença sei lá e ficou com problemas mentais. Subia num barranco e ficava de braços abertos, cantando “inglês”, segundo ele. Eu passava. “Aêê, Geraldo. Está arrasando hoje”. Sabia nome de todos os passarinhos. Eu perguntava. “Que passarinho é aquele?”. “Coleirinho”. E aquele. “Canário belga”. Pintassilgo. Cardeal. Azulão. Trinca-ferro. Sabia tudo. Eu tentava enganá-lo trocando os nomes, ele me corrigia. Mas tinha dia que estava agressivo, perigoso. Nesse dia estava demais. Gritava palavrões e tinha uma pedra enorme na mão. Ameaçava quem passava. Não cheguei de imediato, pois nunca o tinha visto daquele jeito. Falei seu nome várias vezes de longe, de olho na pedra. “Geraldo. Sou eu... o Caulo. Seu amigo da coxinha”. Nada. E tome xingamentos. Deve ter se cansado, acabou sentando no meio-fio, ainda xingando baixo. Cheguei perto e me sentei. “Que é isso rapaz? Fica brigando aí. Fazendo medo em todo mundo. Xingando, gritando. Depois vai reclamar, sua cabeça vai doer. Larga essa pedra, toma um picolé”. Não falou nada, mas deixou a pedra e pegou o picolé”. Falei. “Pedra feia. Vou jogar fora”. Finalmente, ele falou. “Pode jogar”. Mas voltou a xingar, baixinho, cada nome feio. Num desses lances de Deus, comecei a ouvir um canto. No fio do poste, um passarinho cantava lindamente. Falei pra ele. “Se você não parar de xingar, não vai ouvir uma coisa linda, que eu sei que você gosta. Para, por favor. Escuta.”. Foi parando aos poucos à medida que eu induzia. “Está ouvindo?”. Foi se desmontando, mudando fisionomia. Ficou ouvindo por muitos minutos. Olhou pra mim, depois pra cima, pra mim de novo, e eu perguntei. “Que passarinho é aquele?”. Parecendo maravilhado, pelo menos calmo, respondeu. “Sabiá. Não conhece uma sabiá?”.
E emendou balançando o dedo negativamente. “ É de Deus. Não pode matar”. Achei aquilo sensacional. Ele na sua loucura plena era mais lúcido que muita gente. Da fúria de sua loucura, ele ficou amável. Fiquei me perguntando. Será que o canto do pássaro acalmou o coitado? Acho que ela sabiá foi enviada por Deus. Os sons de Deus estão por toda parte.

O SOM DE DEUS.

De manhã pelas ruas andei
quando um som diferente escutei.
Era uma melodia de muita harmonia.
Jamais ouvi semelhante canção,
em rádios, em bares
nem nas cordas de um violão.
E eu pensei nos seres humanos.
Fiquei ali no meio da praça
domado, contagiado.
Então vi pessoas correndo pra lá e pra cá
e triste fiquei;
na multidão que passava
somente eu escutei.
E eu pensei nos seres humanos.
Como as pessoas têm pressa!
Correm tanto para ver o futuro
e não veem que o presente é mais real, mais seguro.
Não veem que a simplicidade é irmã da felicidade.
Passam por um jardim, pisam numa flor
e ainda ficam pedindo amor.
Mas eu estava encantado demais
e deixei tudo isso pra lá.
Só queria saber de onde vinha aquele som
que me trazia algo de bom
coisas que a parabólica não pode captar.
Então vi.
Não era nenhum cantor,
não era nenhum instrumento.
Era apenas um passarinho
mostrando o seu talento.

24 comentários:

Sandra Botelho disse...

Vou te contar uma coisa, tive dias ruins, e todas as manhãs em um quintal ao lado do meu predio que possui muitas arvores frutiferas; um sabiá cantava, era incrivel, todas as manhãs sem falhar...
Uma dessas manhas deitada em minha cama eu peguei meu cel e gravei, aquela cantoria que durava minutos...
Ele cantava... Então pensei, Talvez seja um recado de Deus prá mim, Que tenho tantas coisas boas, tantos motivos para cantar e estava a me entregar a dor, por pequenas coisas que não valem a pena. Aquele pequeno passaro, aparentemente tão indefeso e fragil, me ensinou uma grande lição de vida, e me mostrou que Deus fala através de sua criação!
Lindo texto, lindo poema.
Bjos no seu doce coração!

marjoriebier disse...

Que lindo... trabalho na frente de uma praça... na minha janela, todo dia, vem um beija-flor fazer graça. Depois ele vai, se perde no meio das árvores, mas nos deixa de sorriso na boca. Adoro!

Fatima disse...

Vc sempre tão lindo Carlos!
Tb tenho o privilegio de acordar ouvindo pássaros.
Bjs.

Vem desfrutar do Amor de Deus disse...

Carlos...voce não existe sabia? sua sensiblidade emociona... amigo, muitas vezes vemos nessas pessoas "aparentemente loucas" uma alma muito mais digna do que muitos que se dizem "normais"...
Na minha cidadezinha também tinha muitos pássaros e meu irmão mais velho sempre teve paixão por eles..sabiamos muito sobre eles porque meu irmão nos ensinava e em casa todos somos muito conscientes e respeitamos esses serezinhos que Deus criou para alegrar nossos dias com seus cantos...
Parabéns mais uma vez por nos presentear com texto tão lindo
Bjs e tenha um lindo dia
Marcia

Wanderley Elian Lima disse...

Você não foi o único que nunca matou um passarinho, eu também não, aliás não gosto nem de ver um passarinho preso na gaiola.
Abração

Everson Russo disse...

Interessante, voce tem razão, aqui onde eu moro, uma avenida movimentada, por volta das seis da tarde complicado de se atravessar, barulhos terriveis, mas sempre lá pelas quatro da manhã, um coral de passaros começa a cantar, incrivel, não sei se os bichinhos tem relogio...rs..rs..mas é sempre no mesmo horario, e é uma delicia, quando ao som de Deus,não tem melhor pra se ouvir, sentir, deixar entrar na alma, deitar , fechar os olhos e saborear....meu amigo, hoje dia corrido, olha a hora que to te visitando, trabalho, mesa cheia...coisa horrivel...rs..rs...mas sobrevivi...abraços meu querido e uma belissima noite pra ti...

Majoli disse...

Carlos, ao te ler fiquei emocionada, teu jeito doce de ser com as pessoas, no caso esse rapaz louco, mas que um canto de passarinho parece o ter acalmado.
A poesia é linda, é mágica.

Tenha uma boa quarta meu amigo.
Beijos.

Principe Encantado disse...

Onde moro é uma festa ao amanhecer, os cânticos se confundem, muito lindo.
Abraços forte

sandra Freitas disse...

Hoje ler seu blog foi como ouvir um passarinho cantando. Obrigado por tornar tudo tão mais leve.Deus é maravilhoso e está sempre a Si mostrar por meio de sua criação. Precisamos sempre de pessoas como você que nos lembra de prestar atenção nesses sinais Divinos e maravilhosos.
Um abraço pra você amigo poeta.

Ah..ontem alguém me falou que era dia do poeta..rs 20/10. Então parabéns duplos pra você..

Ná! disse...

Carlos fiquei conhecendo o seu blog á pouco tempo, mas é um dos blogs que mais gosto de seguir, nem sempre comento, mas tenha certeza que leia todos os posts que você escreve. E sabe porque gosto tanto do seu blog?

A resposta é fácil, é porque me sinto mais leve quando leio o que você escreve.

Beijos!

Everson Russo disse...

Deixando ao amigo e super poeta, um forte abraço e o desejo que tenhas um belo dia...alias, eu nem sabia disso, fiquei sabendo ontem, que foi dia do poeta, então parabens...

(Carlos Soares) disse...

Obrigado a todos.Estou co m dificuldade de respostas,mas grato pelos comentários.Um abraço

(Carlos Soares) disse...

Obrigado Everson;Segui suas dicas e meu blog,FELIZMENTE, já normal. Já estava chateado de não poder falar sossegado com os amigos. Eu não sabia também que ontem era o dia do poeta .O dia Da poesia eu sei, qyue é 14 de mnarço,um dia antes do meu.Aí fica fácil.De qualquer forma, parabéns a nós todos. Quer Saber? Todo dia é dia do poeta e fim de papo. Um abraço

(Carlos Soares) disse...

Obrigado,Ná.Palavras gostosas, confortantes de se ler. Comente sim que eu gosto.beijos

(Carlos Soares) disse...

É sim,Sandra. Deus nos fala a todo momento.Obrigado pelo carinho e atenção.bjs

(Carlos Soares) disse...

Sandra Botelho.Que linda história a sua.Ate´ se confunde com a minha.É isso aí,ouvir e olhar as coisas simples.Deus nos fala a todo momento sim.Beijos

(Carlos Soares) disse...

Meu blog está chique.Tem até um príncipe.Que bom.Brincadeiras à parte, não consegui acessar seu blog,amigo.É como se fosse só para cadastrados.obrigado.Volte sempre.Um abraço

(Carlos Soares) disse...

Oi,Márcia. e eles estão voltando. E olha que já fiz poesia apocalíptica,sem pássaros,sem borboletas. Que bom que eu errei. Mas isso foi um tempo em que eu pensava que era um paladino da justiça. Aí ficava do lado dos coitados como esse com problemas mentais. Quando se tem dezoito anos a gente pensa que pode tudo.Até salvar o mundo.Mas isso já passou. Ainda maisvendo que tem muitagente preocupada com o planeta sim. Obrigado por seu carinho desempre.bjs

(Carlos Soares) disse...

Valeu,Fá.Você é 10.Beijos

(Carlos Soares) disse...

Ô Wanderley. Eu falei "minha época".Sou mais velho que você. Acreedito que voc~e não tenha matado também. Eu também nunca achei legal passarinho preso em gaiola. Já escrevi " passarinho na gaiola, canta é de tristeza". Às vezes vejo na tv pessoas que têm o dom de fazer com que pousem em suas mãos e eu fico morrendo de inveja.Um abraço

(Carlos Soares) disse...

Sim,Majolki.Tinha problemas mentais, mas sabia respetias ascoisas de Deus.Por isso ele disse.. "é de Deus, não pode matar". mesmo saindo de um instante de fúria minutos antes. Com certeza, foi o canto da sabiá, o som de Deus, que o acaalmou.Beijão.Feliz de ver você aqui de novo

(Carlos Soares) disse...

Finalm,ente Marjorie falou,né.Só vem aqui e dá um olá e voa igual esse beija-flor que citou.Valeu, bjss

Elaine Barnes disse...

Você é simplesmente maravilhoso! Que texto lindo e tocante! Como sou manteiga fui lendo, vendo a cena e enxugando as lágrimas. Todas as manhãs acordo com o sabiá. Creio que sou calma por causa dele.Deve ser de Deus com certeza.Me emocionei com a sabedoria do louco e o sentimento puro. Carlos, Louco e passarinhos; cada um com seu encanto,Com seu canto e seu talento. bjs amigo te gosto muito

Áurea disse...

Este blog é um amor
Não me farto de dizer
Cada vez que aqui entro
Estou sempre a aprender

Grande lição a quem
Mal trata os passarinhos
Eu também nunca o fiz
Que mal fazem! coitadinhos!...

Se há coisa que me irrita
E me põe mesmo a sofrer
É ver desmanchar o ninho
Das andorinhas por prazer

Um dia ia a passear
Com um grupo de meninos
E vimos caídos no chão
Os seus queridos filhinhos

As crianças muito tristes
Diziam:"quem foi que fez
para estas andorinhas
tão grande malvadez!.."

Falei e expliquei
Foi alguém sem coração
Que derrubou por querer
Deitou a "casinha" ao chão

Ficamos muito tristes
Tentámos saber quem foi
Mas nunca conseguimos
Isto é coisa que "dói"

O "Som de Deus" é lindo
E muito enternecedor
Desejo-lhe felicidades
Carinho e muito amor

Bjo
Áurea