ESCREVER É DIVINO!

ESCREVER É DIVINO!
BONS TEMPOS EM QUE A GENTE PODIA VOAR. ERA MUITO BOM SER PASSARINHO.

CAMINHOS DE UM POETA

CAMINHOS DE UM POETA
Como é bom, rejuvenescedor e incentivador para o poeta, poder olhar para trás e ver toda a sua caminhada literária, lembrar das dificuldades, dos incentivos e da falta deles, da solidão de ser poeta e do diferencial que é ser poeta. Olhar para trás e ver tudo que semeou, ver uma estrada florida de poesias, e dizer: VALEU A PENA! O poeta vai vivendo, ponteando, oscilando, e nem se dá conta da bela estrada que escreveu. Talvez ele não tenha tempo porque o horizonte o chama, e o seu norte é... escrever... escrever... escrever. Olho hoje para trás... não foi fácil, mas também ninguém disse que seria. E eu sabia que não seria, ser poeta não é fácil, embora seja lindo. Contemplo a estrada que eu fiz, e digo com orgulho quase narcisista: Puxa... como é linda minha estrada!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

MEU PRIMEIRO EMPREGO


Meu primeiro emprego.Tempos difíceis, mas com alguma dose de humor. As coisas aconteciam e até hoje acontecem comigo assim: num misto de dificuldade e humor. Acho que eu fiz ser assim para abrandar as situações, sempre tirando um pouco de bom, de cada momento. Sendo assim prefiro levar as boas lembranças. É a minha peneira.
Talvez com catorze ou quinze anos, minha irmã veio avisando que me arrumou um emprego num barzinho de um chinês. Aceitei, estava precisando. Me senti peixe fora d’água naquele ambiente hostil, servindo cerveja e cachaça àqueles homens jogando sinuca, discutindo, todos falando alto ao mesmo tempo, bafos de onça, fumaça de cigarro, músicas de mau gosto, enfim nada que combine com um garoto Hoje a lei não permite mais. Pior: O chinês falava muito mal o português. Acabava se irritando com a gente, como se a gente tivesse culpa. Digo “ a gente”, porque meu amigo Jairinho já trabalhava lá há um ano e já tinhas as manhas com ele. E logo no primeiro dia, já imaginei que não daria certo, não me passava simpatia. Fui aguentando, sempre com medo dele. Pão duro que só ele. Não podíamos comer uma coxinha sequer. Quando precisava se ausentar contava os salgados. Num dia, Jairinho foi pagar contas para ele. Eu tinha arrepio de ficar sozinho com ele por causa da dificuldade de comunicação. Chegou para mim e disse com dinheiro na mão: “Comprar ‘farango’. Vai comprar ‘farango’. Anda, moleque.”. Não entendi nada, ainda mais com tanto barulho no bar. “O que é farango? Onde vende isso?”. Depois de muito insistir, ficou nervoso, com sotaque todo errado.”Menino burra. Deixa eu mesma compra ‘farango’. Burra, burra”. E saiu. Voltou daí uns 20 minutos com um pacote de papel pardo e já foi me dispensando. “Pode ir comer. Eu fica sozinho”. Quando voltei do almoço, Jairinho já estava lá. Falei. “Vou ficar aqui não, Jairinho. Esse ‘véio’ só fica me xingando e eu não gosto que me xinguem. Eu não sei responder e fico mal por isso”. Tentando me acalmar, falou. “Calma, rapaz. Tolera mais. Você precisa”. “Ah, preciso, mas não é assim também não”, retruquei. “Mas o que houve de tão grave hoje?”, perguntou. Contei o caso do ‘farango’ e Jairinho quase rolou de rir. “Era frango, Carlos. Ele não consegue falar ‘fr’ juntos”. Ficou rindo mais um tempo enquanto lavávamos os copos e limpávamos as mesas.
Por coincidência, minha irmã acabou indo lá e perguntou como eu estava me saindo, no que ele respondeu. “Não presta muito. Não entende nada”. Coitada, preocupada como sempre, pediu. “O senhor tenha paciência com ele. É muito novinho, tímido. Vai acabar acertando, questão de tempo”.
Passam mais uns dias e vem ele de novo. “Vai comprar ‘tirigo’. Não demorar”. Aí não teve erro. Falei alto. “TRIGO! ”. Ele riu gostando de eu ter deduzido rápido. “Oh, até que enfim, né. Tá melhorando um pouco”. Mas não deixei por menos. Apontei o dedo para ele e falei. “Repete comigo. TRI-GO. TRI-GO”. E ele. ‘TI –RI-GO’. ‘TI-RI-GO’. Desisti, não tinha jeito. E não tinha mesmo jeito. Quando tudo parecia caminhar em paz, o dia fatídico. Como tinha mania de chegar calado, tentando nos surpreender, não o vi entrar, pois estava de costas pegando uma cerveja. Quando levantei a tampa do congelador, espalharam tantas asas de ‘farango’ pelo chão. Ele havia colocado e eu não vi. A bacia foi parar na rua. Ele desesperado, catando tudo, limpando com a mão e gritando. “Meu ‘farango’. ‘Meu farango’. Ai, meu Deus. Ai, meu Deus”. E a peãozada dando gargalhadas. Nem esperei, eu mesmo fui embora. Aquilo não servia para mim. Dias depois, Jairinho foi à minha casa. “O China está perguntando se você não vai buscar seu dinheiro”. Respondi. “Diga a ele que não preciso do dinheiro dele”. Mas ele foi honesto. Mandou o dinheiro para mim no dia seguinte.
Mais de vinte anos depois, passeando na cidade, encontrei Jairinho numa feliz coincidência. Fomos tomar cerveja adivinhem em que bar? No mesmo. Agora já remodelado, reformado, umas tvs para se ver jogos, paredes pintadas de verde limão bem clarinho, não tem mais a sinuca. Perguntei ao Jairinho se tinham aumentado. Ele disse que não, era o mesmo espaço. Quando criança, parecia maior. É que criança vê tudo grande. Atrás do balcão um chinesinho simpático, de uns vinte anos. Fui saber, neto dele. O avô morrera há alguns anos. Não deixei de fazer uma piada. “Me dá uma cerveja e duas asas de farango”. O rapaz me olhou com estranheza., não entendendo nada. Jairinho que já o conhecia, contou o caso do ‘farango e do tirigo’ para ele e demos boas risadas. Jairinho não me deixou pagar nada. Disse. “Encontrar meu amigo de primeiro emprego não tem preço”.

17 comentários:

Fatima disse...

Suas histórias são sempre ótimas!
Bjs.

Secreta disse...

Uma "boa" historia , para começar o dia :)

Everson Russo disse...

Sempre hilarias e bem colocadas suas historias, voce me faz lembrar das minhas loucuras tambem, o meu primeiro emprego tambem teve a ver com bebidas...rs..rs...um restaurante e bar da familia e depois de tanto tempo passado, hoje na area de informatica, percebo uma coisa, foi nessa época passada que aprendi a tocar violão, então sonhei um dia ser um musico, ter uma banda, meio assim como Renato, aprendi a tocar, escrevo um pouco, mas o sonho se perdeu pelo ar, e esse de musico já era o segundo a se perder, o primeiro, penso que a maioria dos garotos, ser jogador de futebol...rs..rs...esse então, bem mais distante, apesar de na minha infancia ter sido um bom goleador, não tinha muita intimidade com a bola...rs..rs...foi se o sonho...agora não sei mais o que sonhar, mas nao vou parar....abraços amigo, um belo dia pra ti....tenha sempre paz....

Bia Maia disse...

Carlos!!

morri de rir aqui!

Gosto demais do seu blog!

Tenha uma linda semana!

E amei o que vc me escreveu, viu?
Sobre a "cachoeira"...Lindo de morrer!

Beijocas com amor!

Biazinha

Carlos Albuquerque disse...

Olá, xará!
É bom visitar os amigos da Blogosfera.
Esta história, contada assim onde nem falta sinuca, cachaça, fumaça de cigarro e música de mau gosto, me fez sorrir, fiquei "farangado".:)
Um abraço

(Carlos Soares) disse...

Caro amigo, Everson. Comentário tão bem feito, merece uma réplica maior também..Complexa essa coisa de sonhos. Todos têm, e eu não sou diferente, alguns sonhos guardados, podados,alguns até perdidos. Tive infância difícil, adolescência e até parte da juventude privadas de muitas coisas, o que não me impedia de sair brincando, porque eram materiais. As sentimentais, eu mesmo buscava e fazia. Curiosamente, tempo foi passando e as materiais que fui deixando de lado, a maioria foi acontecendo até mesmo sem esperar. Como se fosse uma espécie de recompensa da vida. Das sentimentais... tive grande decepção amorosa, fiquei quase 15 anos sem namorar de pegar na mão, de ir pro cinema e tal. Saí da cidade magoado por falta de oportunidades, tive que ver minha mãe e irmãos indo embora, morava sozinho etc. Jurei nunca mais pisar lá... e fiquei mesmo 13 anos sem voltar ao bairro, na cidade até ia, mas no bairro não. Aí pensei: o que estou fazendo comigo mesmo?.E quebrei esse gelo e voltei ao bairro. Foi uma festa incrível entre os amigos.Aí vi como era querido por eles e como eu os gostava também. Infelizmente uns morreram, outros estão no exterior. Amo a cidade e gosto muito da cidade em que moro hoje também. Por isso gosto de contar as coisas de lá, porque apesar de tudo sinto saudade gostosa. Mágoas não mais.Isso não me faz triste. Aprendi a conviver com isso um pouco. Não nego que de vez em quando dou uma recaída, pois não sou de ferro.Vou citar uma frase do Raul, antecessor do Renato, dois grandes, cada um em sua época. “Se você não está dentro da Sociedade Alternativa, a Sociedade Alternativa sempre esteve dentro de você”. Isso é convicção, autenticidade,essência, porque o sonho habita dentro da gente, independente de alcançar hoje ou amanhã. Talvez até mesmo nunca. Eu não gosto da palavra nunca, já que o sonho está lá dentro movendo a gente. Sei que você não vai parar, alías nunca parou, tem um belo trabalho,bem interessante mesmo e tem conquistado pessoas com sua música,sensibilidade e poesia. O próprio Renato Russo, não era um cara feliz. Parecia que tinha algo incomodando ele, mesmo sendo o grande astro que foi. Com certeza, ele tinha algum sonho guardado dentro de si, ainda não alcançado. Eu adorava vê-lo cantando com aqueles olhos tristes mesmo quando era no rock como QUE PAÍS É ESSE? Outro dia, uma amiga me disse. “Carlos, a gente olha pra você e sente que você tem uma inquietação dentro de você”. Pois é, meu caro”. Os poetas têm essa inquietação. Até mesmo Drummond me parecia um poeta triste, introvertido e é isso que me atraía nele, assim como no Renato, além da poesia,claro. Aliás, não fiz o texto até hoje, por culpa sua. Agora aumentou minha responsabilidade. Enfim, às vezes penso que não realizamos todos os nossos sonhos, porque não aprendemos a ser egoístas, porque passa pela nossa cabeça, sua, minha e desses poetas que citei, o sonho maior que é de um mundo melhor. Acho que me perdi um pouco porque fiquei emocionado e sei que o amigo também estava, quando fez o comentário. Como seu admirador, entre tantos, peço que não pare mesmo. Deixa essa inquietação mover você. Um abraço

(Carlos Soares) disse...

Valeu,xará.Um abraço e obrigado

(Carlos Soares) disse...

Bia, o seu também é lindo e achei uma incrível e gostosa coincidência de textos. Beijos

(Carlos Soares) disse...

Obrigado,Fátima e Secreta.Mais um pedacinho de mim essa historinha.Gosto delas. Saudade gostosa

marjoriebier disse...

Olá! Estava passeando pela internet e encontrei teu blog. Que bom espiar aqui.

Bj

Elaine Barnes disse...

Que história gostosa de se ler! Você é demais! Gosto das coisas simples. abração amigo

Wanderley Elian Lima disse...

Ei meu amigo, sua história é ótima, você é ótimo. Isso me fez lembrar meu avô que era estrangeiro e falava, baderlê, adivinha o que ele queria dizer?
Abração

*Adriana* disse...

Sempre bem contadas suas histórias. Não pude deixar de sorrir ao ler que o chinês contava os salgados antes de sair. Tal qual mineiro? Desconfiado!...rs.

(Carlos Soares) disse...

Pois é,Adriana.Deve ser a convivência rs rs

(Carlos Soares) disse...

Claro. Baderlê,só pode ser Wanderley.Um abraço

(Carlos Soares) disse...

Que bom, Marjorie.Nome bonito.Volte sempre

(Carlos Soares) disse...

Obrigado,Secreta.Já tive prazer de ir buscar inspiração no seu blog hoje.
Beijos e obrigado também Fátimna