
Nem sei pra quê contar isso. Mas é engraçado. Pronto, sendo engraçado já é um motivo para publicar. Este blog está muito sério ultimamente. Eu e mais três amigos, Salvador, Walter, e Jaiminho, sendo dos quatro maior de idade só Salvador, resolvemos comprar um carro velho. Tínhamos entre 15 e 17 anos. Todos trabalhavam em pequenos empregos: bares, lava-jatos, oficina mecânica. Eu, numa oficina de usinagem. Um dia, chega Salvador dando notícia de que um freguês da oficina onde trabalhava, estava vendendo um Maverick,74. E propôs. “A gente podia comprar, fica indo a pé pro clube,volta de madrugada pra trabalhar no outro dia. Fora as meninas que vão cair em cima de nós”. Nem tanto, mas que agitávamos no bairro, isso sim. Eu gostava mais de ir a pé, convencia os amigos de que era mais divertido. Quando íamos de ônibus eu sentava atrás no ônibus e ia cantando. As pessoas gostavam. Quando eu não ia o motorista perguntava. “O cantor não veio hoje por quê?”. As meninas de lá gostavam de nós, diziam que éramos divertidos, que os rapazes de lá, eram bobões. Isso até dava umas confusões. Vez em quando a gente não podia ir, pois preparavam briga. O legal é que as meninas ligavam pra gente avisando. “Vem hoje não que eles querem brigar”. Resumindo, compramos o carro. Hoje concordo que foi grande irresponsabilidade, mas vai dizer isso na época. Gastei o pouco que tinha, além de pedir patrão para adiantar dinheiro das férias. O carro estava razoável. Alguns amassados, arranhados, uns podres embaixo da porta que nem apareciam muito por causa da cor preta. A maçaneta do vidro do motorista dura pra danar, poltronas meio acabadas, mas funcionava até bem. Era possante e poçante. Onde parava deixava uma poça de óleo. Também por aquele preço, não dava para comprar uma BMW. Salvador, por trabalhar em oficina já sabia dirigir, eu não sabia nem o que era câmbio. Todos sabiam um pouco, menos eu. Com muita dificuldade e riscos me ensinaram aos poucos. Subia no meio-fio, tirava as velhas da calçada. Tinha um senhor que gostava de ficar debaixo da árvore de sua casa, não ficou mais. Na época não tinha tanta fiscalização. Alguns mais velhos diziam: “Esse carro ainda vai dar problema”. Incrível como os mais velhos acertam. Andávamos pelo bairro dia todo nos finais de semana, sempre devagar, não só pelo risco, como também para curtir. Eu falava pro Salvador. “Se gente passar correndo, as meninas não veem a gente, não tem graça”. E o Marcelo. “Gostei. Falou a voz da experiência”. Para o clube, só Salvador dirigia, pois pegava um pouco da BR e era mais experiente, apesar de não habilitado. Eu gostava de fazer tipo. Cabelo grande, óculos John Lennon, bracinho do lado de fora e um sonzinho velho tocando I WANT TO BREAK FREE, do QUEEN. Fazia umas caras de mau olhando de lado.O carro cheio de homem. É que ninguém saía do carro. Tinha uma menina chamada Rosângela, que acho que me dava bola, não parava de rir quando me via. Eu era doidinho pra chegar nela e agora de “carrão”, eu ia arrasar. Numa dessas voltas, pensei em “passar na rua dela”. Quando virava a esquina, quem estava lá? Rosângela. Num bustiê pretinho, com aquele shortinho vermelho apertadíssimo, coxas quase negras com pelinhos pintados de água oxigenada. Que visual! E ela ainda dá um tiauzinho. “Ei, Carlos. Quero dar uma voltinha, hein?”. Fiquei olhando pra ela de boca aberta e não fiz a curva na esquina... e derrubei o muro de uma senhora, quase entrando na sua cozinha. Ela servia almoço, cozinhava numa varanda no quintal e a panelada foi quase toda pro chão. Quase morreu de susto. Quase mesmo, tinha pressão alta, diabete e tudo mais. Eu fiquei meio em choque. Walter, com uma tampa de panela abanava a mulher no sofá. Jaiminho, que não ligava com nada aproveitava e comia uns pedaços de frango. Salvador acalmava os parentes. Para evitar problemas com polícia, concordamos logo em pagar. Tivemos que vender o carro para o próprio dono da oficina onde Salvador trabalhava, muito mais barato do que compramos, mas deu para pagar o muro. A sorte maior é que o cara tinha dinheiro e pagou à vista, para ajudar a gente e abafar logo o caso. Felizmente ninguém se machucou. Eu fiquei como culpado. “Culpa desse Carlos, metido a conquistador barato Esse John Lennon fajuto”. Passados uns vinte dias vemos o Maverick rodando de novo. O dono da oficina consertou e passou pra frente. Pena. Só oito meses de curtição. Salvador, vendo o carro passando do outro lado da rua, não se conformava. “Eu te mato, Carlos. Agora a gente tem ir a pé ou de ônibus pro clube”. Brinquei. “Preocupe com isso não. Eu posso ir cantando John Lennon pra vocês”, e cantarolei., “..imagine there’s no heaven”. “Pois é”, respondeu rindo, “essa é a pior parte”.
Salvador, infelizmente não está bem de saúde. Walter, mora em Coronel Fabriciano, não vi mais. Jaiminho, vejo quando visito sua mãe quando coincide de ele estar lá. Marcelo mora na Austrália e me liga de vez em quando.