
Não me lembro quantos anos tinha, talvez uns dez. Eu era mesmo um menino diferente. Brincava como todos normalmente, ou até mais. Era eu quem puxava ou criava as brincadeiras. Era eu quem separava as brigas. Mas vez em quando eu sumia. Os coleguinhas cobravam meu sumiço. Hoje penso. Tão novinho e às vezes tão pensativo como se fosse um adulto em corpo de criança. Houve uma inversão. Agora, às vezes me sinto uma criança em corpo de adulto. Será alguma espécie de bipolaridade? Eu não tenho bipolaridade. Devo ter poli... rs rs. Esse é assunto do momento na psicanálise. Engraçado como a ciência gosta de inventar pano pra manga. Amanhã criam outra teoria e apagam tudo. Não creio muito nisso de bipolaridade. Existem momentos extremos opostos, que nós todos, humanos que somos, estamos sujeitos. O negócio é que as pessoas não assumem o que são, escondem seus anjos e/ou dragões. De vez em quando um aflora e surge o termo ‘bipolar’. Ainda farei um texto só sobre isso. Numa escolha rápida, prefiro meu EU de agora. Melhor ter uma criança habitando na gente que ser um adulto precoce. Infância é para brincar. Voltando ao assunto. No fim do bairro havia um grande abismo, onde descíamos de carrinhos de rolimã. Eu vivia com as pontas dos dedos esfoladas. Sentava sozinho na beira daquele abismo onde ao longe avistava o grande rio e depois dele, a floresta. Quantas vezes eu fui dentro da floresta mentalmente. Gostava de ficar cantando baixinho, falava com Deus, escrevia coisas na areia. Aprendi a ser privado de algumas coisas materiais, de belos brinquedos... mas não a ser acomodado. Nem de ficar em lamentações. Mas a gente não é de ferro e principalmente criança, tem hora que quase sucumbe. Ou fica triste. Só que graças a Deus, desde novo sempre tive capacidade grande de me recuperar. No outro dia estava jogando bola na chuva. Duas coisas boas de se fazer na chuva. Jogar bola e beijar. Jogar, joguei muito. Meus pais eram dois opostos que davam certo. Ele festeiro, sanfoneiro, ganhava pouco, mas estava sempre com riso na cara. Isso mesmo. Cara. A gente não vai pra guerra com o rosto, mas com a cara. A cara é a nossa valentia, nossa teimosia. E minha mãe, muito honesta, tímida, pessoa simples, humilde, mas não humilhada e fervorosa em Deus. Acabei pegando um pouco dos dois.
Num desses dias de viagem introspectiva, disse não a todos os coleguinhas. No quintal de casa tinha uma bigorna. Estava com muita raiva naquele dia. Não raiva de ‘ódio’, acho que indignado com toda uma situação e condição. Peguei uma pequena, mas pesada marreta para meus bracinhos magros e sentado de frente, comecei a bater na bigorna. Comecei devagar. Fui aumentando. A marreta tilintava, saíam faíscas. Alguém gritou lá de dentro, não sei se uma de minhas irmãs, mãe ou tias. “Larga essa marreta, menino. Vai machucar, quebrar o braço, vai bater isso no pé”. Aí bati mais forte ainda. Gritaram de novo brincando . “O que quer fazer com a bigorna? Quebrar?”. Pensei. “Pode até não quebrar, mas vou deixar minha marca nela. O tempo passa, a gente cresce. Nunca esqueci aquilo e cada dificuldade, a cada derrota, a cada decepção que sofria com as pessoas, a cena da bigorna vinha à minha mente. Acho que foi um aprendizado de mim pra mim mesmo. Levantei outras marretas e saí amassando outras bigornas por aí.
Um dia desses vi um filme com Will Smith, em que o filho pede para fazer uma coisa e ele diz NÃO. O menino acata muito facilmente. O pai (Will), um empresário falido, se indignou e voltou ao filho. “Nunca deixe que as pessoas lhe digam NÃO FAÇA ISSO. Nem mesmo eu que sou seu pai. As pessoas não vão se preocupar com sua felicidade se você não se preocupar . A sua felicidade não interessa às pessoas, somente a você. Tão somente a você. As pessoas não conquistam as coisas e tentam fazer você acreditar que você também não pode”. O filme é de história verídica e o pai se tornou um dos maiores empresários americanos. Peço licença para parafrasear Drummond, meu ícone máximo na literatura: NO MEIO DO CAMINHO HAVIA UMA BIGORNA.
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SONHA, SONHADOR
Serra, serra, serrador.
Quantas tábuas já serrou?
Serra, serra, serrador.
Até que o pau se quebre ao meio,
mesmo que seja madeira de lei.
Mais forte é a sua lei.
A lei do querer que agita você
Deixe cair
as gotas de suas lágrimas, de seu suor, de seu sangue
que um dia a pedra fura
há uma luz no fim da rua escura.
A vida é um bumerangue
tudo que você joga, retorna
Martela, martela essa bigorna.
Ainda que o cabo se parta
ninguém pode dizer que não tentou.
Sonha, sonha, sonhador.
Quantos sonhos já sonhou?
Nada foi em vão ou perdido.
A pedra furou.
A madeira se partiu.
E a bigorna levará para sempre a sua marca
porque você não desistiu