Todos queriam beijar aquela menina
da barraca do beijo.
Todos queriam beijar aquela menina
da barraca do beijo.
Livro, amigo antigo...
Desde os tempos de infância
abraçado a ti, não corro o perigo da ignorância.
Virando tuas páginas,
virei as páginas da minha própria vida,
estivestes comigo em toda a lida.
Fizestes parecer tudo tão breve.
Tornastes meu coração leve,
e minha mente, sã.
Fui o mais feliz Peter Pan!
Fui Dom Quixote, um cavaleiro andante.
Como um Pequeno Príncipe galante,
conheci mundos e criei mundos.
Como Alice, atravessei espelhos,
ouvi de Gepetto, conselhos
para não ser um menino mau
e assim, lá na frente, surgir o homem de bem.
Em tuas páginas fui muito mais além
do que podia me dar o mundo real.
A licença poética vai me permitir usar a palavra “óculos” no singular, para que eu possa representar um objeto que me acompanhou por tantos anos.
=
Olá, amigo! É assim mesmo que lhe chamo: amigo. Quem anda com a gente por 40 anos não merece um adjetivo menor que esse. É o fim de um longo tempo, mas eu não quero chamar de despedida, despedidas são tristes, é só um texto de gratidão. Você apareceu para mim na juventude, eu era bem magro, cabelos longos, enrolados, balançando ao vento, eu era inquieto, rebeldezinho, aventureiro. O tempo passou, ganhei vários quilos, os cabelos nem são mais longos, e estão prateados... mas você ficou aqui, nesse rosto tão modificado. Você também modificou várias vezes. Você era redondinho, eu quis assim por causa do John Lennon. E assim foi, vários formatos, estilo Woody Allen, depois retangular em lentes pequenas, em lentes maiores, depois quadradinho, quadrado grande, de aço, de plástico, até que surgiu a necessidade de escurecer levemente ao sol; eram os primeiros sinais da idade rs rs. “Escuro e com graus”, alguém sugeriu. Muito escuros nunca quis, sempre gostei de mostrar meus olhos. Você se quebrou algumas vezes, ops, digo, eu quebrei você algumas vezes, sentando em cima, ou dormindo com você no rosto, depois de noites bagunçadas. Lembra do dia em que quase lhe perdi num show de rock? Eu peguei você no ar, após escapulir do meu rosto. Poxa, aquilo merecia ser filmado, um monte de gente pulando, eu batendo a mão em você, até conseguir segurar. Esteve comigo em momentos felizes e tristes, várias vezes chorei embaçando suas lentes, seja por derrotas, seja por vitórias. Já lhe embacei debaixo da água do chuveiro também, porque éramos inseparáveis. Tão inseparáveis que quando alguém sugeria para fazer cirurgia dos olhos, eu dizia: “Não! Eu gosto dos meus óculos, me dão um certo charme. Me deixam com mais cara de poeta”. E assim, eu fazia caras e bocas, deixava deslizar sobre o nariz, meio poeta largado. Fazia olhares de lado, tipo despretensiosos, distraído. Eu devia ter uma foto com cada formato seu para fazer um quadro, e colocar na parede. Mas tudo bem, não pensei nisso ao longo dos anos, o importante é que você que esteve sempre na minha retina, também estará sempre em meu coração.
Sempre tive uma teoria de que o poeta não faz poesias, que
elas estão prontas em algum lugar, em outra dimensão, em outro mundo abstrato,
porém muito real, esperando que alguém lhes sirva de ponte para o mundo
terreno, e o poeta tem essas antenas, antenas de sensibilidade. Por que digo
isso? Porque releio algum poema, às vezes anos depois de escrito, e encantado,
me pergunto: “Fui eu mesmo quem escreveu isso?”. Tirando os textos opinativos,
ou com temas específicos, um ou outro conto, alguma crônica, eu não escrevo de
‘caso pensado’, os poemas e textos saem como são, e pronto. Sabe o que é
acordar de manhã com um texto de 40 linhas na cabeça? Parece que alguém (Anjo)
veio de noite quando eu dormia, e colocou dentro do meu Ser. Assim eu penso que
ocorre com os grandes pintores quando estão de frente para a tela vazia, e
surge uma obra maravilhosa, com certeza, vinda também de alguma fonte divina. Sim,
um quadro pintado tem poesia. Assim como a música, a dança. Toda a arte, na
melhor acepção da palavra, tem. No momento, no ato de escrever, é como se eu
estivesse debaixo de uma cachoeira, sendo banhado, recebendo tudo, e a água se espalhando
à minha volta, correndo para o rio, e do rio para o mar, e eu me sentindo
importante por isso porque a água tem que passar por mim, antes de banhar o
mundo. Já escrevi textos que quando terminei, percebi que estava chorando,
aquele chorinho bom. Enfim, não há muita explicação para isso, apenas viver
isso é o que me cabe, e me basta. A poesia é meu melhor instante, é o que tenho
de melhor em mim, é minha aura, ela moldou e molda até hoje a minha pessoa.
Claro que já ouvi: “Mas, Carlos, existem os sentimentos ruins também, o mundo
não é só poesia”. Eu respondo com a serenidade que a própria poesia me dá: “Infelizmente
não. Mas cada um visita a fonte que lhe interessa, não é?”.