
Muito se fala em desapego por
aí. Existem vários tipos de desapegos que acabam causando um desapego
pior, que é o desapego de nós mesmos, quando deixamos de ser sensíveis,
humanos enfim, razão pela qual Deus nos criou. Sim, viemos à terra,
ganhamos um planeta emprestado (isso aqui não é nosso), para amar, ser
amados, e brilhar. Falando dos desapegos, o primeiro é o das coisas
materiais, do dinheiro, da ideia de que para ser feliz, é preciso chegar
primeiro na grande corrida, na concorrência, na lei da selva. Somos
treinados desde crianças a devorar, a derrotar, não aprendemos a
caminhar junto com o outro, temos que sempre chegar na frente. É claro
que nos negócios, no trabalho, na escola, temos que buscar o melhor,
todo mundo quer conforto, um carro, uma casa, fazer uma viagem, isso é
normal, acontece que as pessoas tornam isso o único objetivo de vida, e
quando se deitam, sob a redoma da “felicidade” material conquistada,
envolta na solidão que ela gerou, pergunta ao travesseiro: ‘Por que não
sou feliz? ’ Porque materializou a felicidade. Repito, a felicidade
nunca vai estar em coisas materiais, por mais que precisemos dessas
coisas no dia a dia. A felicidade não é palpável, ela é sentida,
perceptível, percebida, vivida no âmago.
Outro desapego é com
relação às pessoas ruins, negativas. Não vou negar que esse eu pratico,
embora Cristo tenha ensinado ‘a amar seus inimigos’, porque amar o
amigo é fácil, mas confesso que ainda não evoluí a esse ponto, embora
não guarde mágoas, só não consigo ficar perto de uma pessoa que
pressinto que tenha aura ruim, ou que está me prejudicando, roubando
minha energia. Tenho me desapegado de bastante pessoas, separando o joio
do trigo, eu diria. Não tirando onda, tentei recuperar algumas, tentei
fazer com que mudassem, por fim, a gente desiste.
E por fim, um
desapego perigoso que as pessoas estão fazendo, estão se desapegando das
outras, pura e simplesmente de graça. Egoísmo, falta de tempo, medo,
concorrência? Ou tudo isso junto? Não sei. Acho que principalmente
falta-nos sensibilidade, uma anteninha no coração. Às vezes, a pessoa
perto da gente, até mesmo a quem amamos, está debilitada
espiritualmente, confusa, perdida, com baixa autoestima, e a gente não
percebe, e quanto mais a massacramos ou isolamos, mais a estamos
perdendo. Diminuindo a pessoa, estamos diminuindo a nós mesmos, é
preciso olhar no mesmo nível dessa pessoa, e não de cima para baixo, mas
de frente, olhos nos olhos, e depois terminar a conversa com um longo
abraço; abraço é aconchego, ao abraçar alguém, estamos transmitindo
energia, estamos dizendo ‘conte comigo, estou aqui’. É preciso colocar
essa pessoa no nosso patamar, puxando-a pela mão para que se erga, ou
até mesmo descer momentaneamente ao nível dela para entendê-la melhor.
Chicotes até dominam, mas palavras conquistam. O domínio do chicote é
mentiroso, quem tem o outro sob domínio, na verdade não o tem, pois,
para realmente ter, é preciso ver o sorriso no rosto do outro, o brilho
nos olhos, a felicidade ou é repartida meio a meio, ou é enganosa. Já a
pessoa conquistada, essa sim, está com a gente, em igualdade de
condições, emocionais, espirituais, sorri junto em vez de abaixar a
cabeça, caminha na mesma direção em vez de andar de costas. E aquele
abraço, lá no início da conversa, onde um tinha mais energia que o
outro, se tornará um abraço de igual para igual, não haverá mais
dominador e dominado, forte e fraco, mas trocando energia, confiança,
acolhida, estarão empatados, é como misturar meio copo d’água ao outro
meio copo d‘água, num recipiente só. Não vamos nos desapegar das pessoas
que amamos, não vamos desistir delas, pois estaremos desistindo de nós
mesmos, porque quando amamos alguém, nos projetamos nelas, então, como
desistir daquilo ou de quem chamamos de semelhante?
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( imagem James R. Eads and Chris McDaniel -pinterest )