ESCREVER É DIVINO!

ESCREVER É DIVINO!
BONS TEMPOS EM QUE A GENTE PODIA VOAR. ERA MUITO BOM SER PASSARINHO.

CAMINHOS DE UM POETA

CAMINHOS DE UM POETA
Como é bom, rejuvenescedor e incentivador para o poeta, poder olhar para trás e ver toda a sua caminhada literária, lembrar das dificuldades, dos incentivos e da falta deles, da solidão de ser poeta e do diferencial que é ser poeta. Olhar para trás e ver tudo que semeou, ver uma estrada florida de poesias, e dizer: VALEU A PENA! O poeta vai vivendo, ponteando, oscilando, e nem se dá conta da bela estrada que escreveu. Talvez ele não tenha tempo porque o horizonte o chama, e o seu norte é... escrever... escrever... escrever. Olho hoje para trás... não foi fácil, mas também ninguém disse que seria. E eu sabia que não seria, ser poeta não é fácil, embora seja lindo. Contemplo a estrada que eu fiz, e digo com orgulho quase narcisista: Puxa... como é linda minha estrada!

sábado, 31 de janeiro de 2009

O CANTOR E O POETA







Gostaria muito que meus amigos(as) de blog me visitassem hoje.Mas final de semana todos se recolhem ao seu descanso.Porém eu hoje não. Porque estarei sentado à mesa com ninguém nada menos que o grande cantor Zé Geraldo.Deus permita que não tenha imprevistos. Zé Geraldo gravou CIDADÃO, SENHORITA, O PROFETA,QUEM NASCE ZÉ NÃO MORRE JOHNN,SEMENTE DE TUDO,OLHOS MANSOS,RECICLAGEM e outra tantas canções lindas. Além de RIO DOCE,que homenageia a cidade de Governador Valadares. Ele nasceu em RODEIRO cidade vizinha, mas foi criado em GV. Hoje é cidadão valadarense pela Câmara Municipal.Estarei orgulhoso demais de pegar na mão e falar com um de meus ídolos, odeio essa palavra abomino qualquer tipo de idolatria. Diria então, referência, influência. Meu amigo Amaury que ajeitou esse presente para mim. A esposa dele,tem um amiga que é parente dele e ele como sempre, toma uma cerveja depois dos shows com amigos. Amaury disse a mim: "Vou colocar frente a frente dois poetas. O que que vai dar hein?". Eu disse:"PUxa,você está me comparando ao Zé Geraldo? Tá maluco?" . Ele respondeu: "Comparando não.Mas você tem sim argumentos, material e cacife pra estar com ele sim. Você é um cara muito antenado.Parece desligado, mas é muito inteligente. E já falei que vou levar um poeta.Todos já sabem. E o bom que não vai ter muita gente". Mais à frente falo mais da carreira desse grande poeta ZÉ GERALDO.Um cara simples. É, os gênios são simples. Deixem-me controlar a emoção primeiro.Bem amigos, se ele deixar tirarei fotos e colocarei aqui, claro respeitando a vontade e a privacidade do artista. Segue abaixo a música RIO DOCE. Esse é o rio que corta a cidade, vindo de perto de BH e encontra o mar já em Vitória-ES. Já foi navegável, mas ainda é um belo rio. Dirigindo na br passando à margem , o visual é lindo. A vista aérea é mais bela ainda.

Rio Doce
Zé Geraldo

Deposito em suas águas meu grande segredo
Parto pra cruzar fronteiras, engrossar fileiras

Compor meu enredo
Deixo suas margens ricas sob a sombra lírica da Ibituruna
Una, pobre sabiá que perdeu seu canto de frases ligeiras

Por ver se apagar a ilusão ardente
Tão inconseqüente da paixão primeira

Oh! Meu Rio Doce, doce são os seios da morena flor
Cor do seu Ipê
Que vive sob as gameleiras, pés de jenipapo

Junto de você
Leva essa morena no seu leito manso
Faz o seu remanso se vestir de azul

Que eu tô levando a minha mocidade
Pras velhas cidades e praias do sul
Tô levando a minha mocidade pras velhas cidades
E praias do su..ul

Oh! Meu Rio Doce, doce são os seios da morena flor
Cor do seu Ipê
Que vive sob as gameleiras, pés de jenipapo

Junto de você
Leva essa morena no seu leito manso
Faz o seu remanso se vestir de azul
Que eu tô levando a minha mocidade

Pras velhas cidades e praias do sul
Tô levando a minha mocidade pras velhas cidades
E praias do su..ul

Que eu tô levando a minha mocidade
Pras velhas cidades e praias do sul

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A BELEZA É SIMPLES


Veja que coisa linda!
Esses traços.
E essas cores? Tão bem definidas.
Como pôde alguém fazer algo tão perfeito?
Impressionante! Que profundidade!
De qualquer ângulo que se vê nos traz uma paz... a paz na forma mais simples.
Muito singelo!
Ah, que vontade de pegar!
Ponto máximo da perfeição.
Beleza irretocável!
- O que você está vendo aí nessa parede, Carlos?
Algum Picasso, algum Da Vinci?
- Não. Estou contemplando nessa parede branca
o agradável contraste... de uma joaninha.
O bichinho mais simpático da natureza.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

SOL E GIRASSOL


Estava eu, sozinho no jardim.
Um triste girassol
Olhando um céu cinzento
em busca do meu sol.
De repente, no seu sorriso resplandecente
eu vi um novo arrebol.
Do horizonte escuro a um paraíso aberto.
Da incerteza à esperança.
Do medo à segurança.
Foi assim que meu coração saltou, pulsou.
Quem disse que o mundo não presta,
que a vida é ruim.
Que não há pessoas e coisas boas
é so olhar para mim
e ver meu olhos em festa.
Festa de amizade e amor.
Meus olhos que só viam cinzento
vislumbram agora um jardim em flor.
Brilhe muito meu sol,
com a intensidade que ninguém jamais viveu
Aqueça com seu calor esse girassol em forma de homem...
que sou eu.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

MAIS UMA DE FÉ


Este não é um conto comum. É uma história verdadeira, assim como todas as outras que narro aqui. Evidentemente, em algumas ponho um tom poético, em outras, humor. Algumas são românticas, outras tristes. E umas confusas também. Mas o conteúdo central é sempre verdadeiro. Tive uma infância muito gostosa apesar de dificuldades financeiras e ter sido muito doente. Já nasci com um tal sarampo preto que quase me matou ainda bebê. Depois uma pneumonia. E depois uma desinteria crônica implacável que me maltratou por quase dois anos. Mas aí é que está: tirar das situações ruins, sempre algo de bom. Acabei crescendo assim.
Quando meninote, não me lembro a idade certa, mas sei que era muito novinho, eu tinha muitos pesadelos. Era sapo gigante com boca enorme correndo atrás de mim. Corujas e morcegos voando pra me pegar. Mãos cabeludas aparecendo sobre a cabeceira da cama. Eu corria pro quarto de minha mãe. “Mãe, mãe, tem sapo lá”. Às vezes, ela deixava eu dormir na cama dela e de meu pai. Às vezes, ele não deixava, até que estava certo. Tive uma fase tão aguda de pesadelos, que ela arrumou um colchãozinho perto da cama dela. Incrível como a presença da mãe afasta qualquer monstro. Meu pai falava: “Esse menino está é com lombriga”. E me tacava um remédio fedorento e amargo, chamado lombrigueiro. Quando tinha jeito, eu fingia que tomava e colocava dentro dos buracos do muro. De vez em quando via uma formiga carregando. Eu morria de medo dele ver a formiga. Ficava torcendo pra ela passar rápido, porque matar, eu não tinha coragem.
Houve uma noite em que minha mãe me convenceu a dormir em meu quarto. Noite quente. Não tinha ventilador. Janela fechada, claro, por causa do medo. Porta aberta pra eu poder correr de noite na hora dos sapos.
Tenho quase certeza de que ainda não estava dormindo. Eu custava a fechar os olhos porque o pavor não deixava. De repente senti um frio. Um frio gostoso, saudável. E notei um facho de luz chegando. Parecia os contornos do corpo de alguém. Só que não tive medo. Estava deitado de lado e assim fiquei, só olhando. A imagem foi se definindo. Era uma mulher branquinha, muito bonita, de vestido longo, branco, arrastando no chão. Em volta de seu corpo, uma aura, uma luz misturada de amarelo e branco. Tinha um semblante de paz, angelical. Ela se aproximou de minha cama e sentou-se. Passou a mão em meu rosto algumas vezes. Depois na minha cabeça... e disse com voz branda. “Reze,Carlos. Reze muito”. E foi se afastando... até sumir na porta. E dormi.
No outro dia, minha mãe estava no fogão, cheguei perto dela e disse. “Mãe, eu tive um sonho”. Ela ocupadíssima, queimando os dedos disse. “Ai,ai, meu Deus. Lá vem você com seus sonhos”. Eu falei. “Não, mãe.Não foi sonho ruim. Foi sonho bom”. Ela parou um pouco pensando e respondeu. “Deixa eu desligar isso aqui senão queima tudo”. Desligou o que precisava, sentou numa cadeira do lado do fogão. Fiquei em pé, com as mãos nos joelhos dela e comecei a contar. “Mãe, ontem à noite, antes de eu dormir, uma mulher branca, bonita, cheia de luz em volta, apareceu perto de minha cama, colocou a mão na minha cabeça e me mandou rezar sempre”.
Minha mãe emocionada, chorou e me abraçou. “Oh, meu filho. Você é um menino abençoado. Foi a Virgem Maria que apareceu pra você. Eu pedi a ela pra tirar esses sonhos ruins de você porque não temos condições de tratamento. Por que não pensei nisso antes? Venha cá. Ponha as mãozinhas assim, juntas e reze comigo. E me ensinou o Pai Nosso e Ave Maria. Minha mãe ainda disse. “A gente precisa ser digno dela”. Nunca mais tive aqueles pesadelos.
Uns dias depois fui até a porta do quarto dela e disse. “Boa noite, mãe. Boa noite, pai. Durmam com Deus e a Virgem Maria. Viu pai, como não era lombriga?” Meu pai não entendeu muito, também já estava quase dormindo. Minha mãe sorriu.
Não sei se fui ou se estou sendo digno dela, mas a fé que minha mãe passou a mim, tão garotinho, foi muito importante.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Um pouco de música- RITCHIE VALENS- LA BAMBA

Meados dos anos 50. Juventude transviada. Lambretas e brilhantina. Elvis era o grande nome. O branco que cantava com voz de negro, diziam. Imbatível. Era a época do rockabilly. Mas o rock ganharia outro personagem além de Elvis, Little Richard, Bill Halley. Richard Valenzuela, descendente de mexicanos, jovem sonhador como tantos influenciados pelo grande Elvis. Ritchie vivia tendo pesadelos. Seu irmão velho dizia que era falta de mulher, que devia sair mais e largar a guitarra que não saía de suas costas. Um dia o levou a uma espécie de boate e lá viu um grupo mexicano cantando LA BAMBA da forma folclórica, tradicional. Ele disse ao irmão que olhava as mulheres: “Eles estão cantando essa música errada”. O irmão ficou bravo: “O quê? Um tanto de mulher aqui e você está ouvindo esses caras cantarem?”. Pois depois ele imprimiu um ritmo rock na música que estourou rapidamente nas paradas. Estourou ainda outros sucessos como COME ON LET’S GO, que fez 60 exaustivas tentativas num estúdio, até conseguir dar um ritmo e tom final na música. Mas isso não era nada para o jovem abnegado. E ainda “OH DONNA, canção que apresentou à namorada proibida, rica, pelo telefone público. “Ouça o que fiz pra você”. Pelo telefone porque os pais dela não aceitavam o namoro. Rock era meio coisa de bandido .Elvis era considerado pornográfico com seus movimentos de cintura. OH DONA, foi segundo lugar nas paradas, ficando atrás apenas de ninguém nada menos que o rei do rock.
Diante do empresário ele não quis alterar seu sobrenome em respeito à família, mas acabou aceitando e passou a se chamar: Ritchie Valens. Um nome mais sonoro.
Nos pesadelos que tinha, sonhava sempre morrendo de avião. O sonho repetitivo parecia premonição... e era. Com o estrondoso sucesso, os shows aumentaram e a partir daí só mesmo de avião.
Certa noite muito chuvosa, num avião que só cabiam 4 pessoas, sendo o piloto e mais 3, eram em total de 5, portanto haveria um sorteio para decidir quem iria de carro. Estranhamente, já que ele tinha medo, poderia optar por ir de carro, porém entrou no sorteio... e ficou entre os que voariam.
No dia seguinte, a notícia no rádio de que o avião que transportava a banda do jovem cantor Ritchie Valens, havia caído sem sobreviventes, chocou o país. Uma carreira promissora, mas curta. Artistas da época nomearam aquele 3 de fevereiro de 1959, como o “ dia em que a música morreu”.
Uma bela e triste história de rock’n roll.

Texto de minha autoria, mas baseado no filme LA BAMBA que assisti algumas vezes, um dos melhores que já vi, porque gosto do tema.Deviam filmar John Denver, ainda vou falar dele aqui, outro que morreu jovem com belas canções.

PUNHAL

Sinto algo incomodando
Que cutuca, machuca de vez em quando.
Deve ser esse punhal na minha carne
Que transpassa atÁ a alma.
Eu,na minha aparente calma
Finjo que näo é comigo, que não corro perigo.
Mas meu sorriso frágil mostra o quanto dói.
O ferrugem corrói.
E se às vezes solto uma estrondosa gargalhada
Pode ser o urro de uma fera machucada.
Nem eu posso retirar...
de täo forte que cravou.
Mas isso não é de todo mal.
O punhal que faz morrer
também ajuda a viver.
A dor que näo deixa dormir
é a dor que faz crescer.

sábado, 24 de janeiro de 2009

SOBRE DAMAS E PROSTITUTAS


Nem sei por que vou contar isso. É muita coragem. Deve ser falta do que escrever. A idéia veio no terraço, noite de insônia, céu triste, chuvoso.
Um dia desses vi na tv uma ex dona de bordel sendo entrevistada. Ela dizia que ao contrário do que muita gente pensa, os homens não vão lá só para transar. Claro que a grande maioria é, mas tem uma boa faixa daqueles que além de sexo, procuram alguém para conversar, se abrir, falar de problemas, do emprego, enfim acabam virando psicólogas, conselheiras, amigas mesmo. Contou até uns casos engraçados, outros tristes.
Passei uma fase bem rebelde na minha vida, diria até perigosa, pois, falava o que queria e onde queria. Sem contar os problemas de ordem pessoal e familiar que ajudava um pouco naquele jeito tresloucado. Quando se tem 20 anos, a gente pensa que pode mudar o mundo. Pura bobagem! Mas também não fiquei alheio depois, só não pretendo mais ser um paladino da justiça. Não gostava (e não gosto) de injustiças e covardia. Então não agüentava ver ninguém deitado nas esquinas, menino pedindo na rua. Um dia cheguei perto de um policial que batia num malandro e disse: “Por que o senhor está batendo se ele está algemado, deitado?”. “Saia daqui senão leva também”. Um dia, apesar de não ser preso, andei no camburão da polícia, porque me indignei com um cobrador que tratou mal a um idoso. Então eu era assim. Tomava as dores de todo mundo. Mas parei, graças a Deus. Ainda fico indignado, mas só por dentro. Eu era contra o vento dos new wave do fim anos 70,início dos 80. Aquele falso “ tempos da brilhantina” lançado por John Travolta. Os tempos da brilhantina existiram sim, mas nos anos 50, 60 com Elvis e James Dean, essa sim, uma juventude que fez acontecer, foi lá e buscou. A juventude dos anos 80, pegou tudo pronto da mídia e achava bonito andar de calça preta e bota. Enquanto via os amigos acertandoo cabelo com gel eu não penteava o meu pra ele ficar mais enrolado.Aquilo era só uma moda, eu tinha era estilo.Tanto é que Travolta se transformou num grande ator. James Dean, Little Richards, que subia em cima do piano, todos morreram rock’n roll. Chuck Berry ainda é vivo. Meus ídolos era meio assim polêmicos, alguns malditos, mas gente que fez acontecer. De diversas áreas e culturas. Gandhi, Raul Seixas, John Lennon, Che Guevara,Tiradentes ( o verdadeiro herói brasileiro), Rita Lee, Zé Ramalho e até Lampião. Eu não queria ser tão contundente como eles, apenas mostrar às pessoas, um jeito novo de querer.
Todas as vezes que tentei entender a raça humana (que prepotência a minha), fui ao fundo do poço. Era com os bêbados, com os mendigos, com as mães pobres que eu conversava. Essa gente tem muito a nos passar. Escrevi “Da minha janela”, de onde eu descia às mazelas humanas, ao submundo da sociedade. A miséria sendo tratada como piada. Só indo aonde as pessoas sofrem é que temos a verdeira idéia do que passam. Certa vez falei com um mendigo por mais de uma hora no banco da praça, enquanto aguardava o banco abrir. Escrevi “Um bêbado me disse”. Um professor me alertou. “Nenhum jornal vai publicar isso. Você está mais é vomitando que falando. Falando mal até dos jornais”. Uma outra vez, falei com um louco lá do bairro que só falava quando queria. Ficava dia todo andando na rua, sem dar uma palavra. Quando falava era dia todo. Gostava de subir no barranco também e cantar de braços abertos. Um dia mostrei a ele um passarinho vermelhinho lindo no fio do poste. Ele pôs a mão no meu ombro e com a outra fez sinal com o dedo, de negativo e disse: "De Deus. Passarinho bonito. Não pode matar”. Achei incrível isso.
Mas o que tudo isso tem a ver com as prostitutas? Quando me sentia em fase extrema de revolta, com ego altamente elevado, costumava me exilar. Não pelos cantos, mas em outros lugares, onde não conhecia ninguém. Nunca usei drogas, até mesmo porque apesar da rebeldia, era medroso. Um “amigo” me ofereceu na palma da mão um cigarro de maconha e eu disse a ele. “Não tenho nada com sua vida, mas se você me oferecer isso mais uma vez nunca mais falo com você”. No outro dia foi na minha casa, pediu mil desculpas e falou: “Deus me livre perder sua amizade”. Mas bebia muito, de tudo que é tipo de bebida numa só noite. Gostava de ir à uma zona boêmia, em especial numa boate. Claro que de vez em quando ficava com uma, mas eu gostava mesmo era de sentar no meu canto, tomar umas doses e ouvir música. Passava horas ali. De vez em quando me sentava ao balcão, conversando com a dona do bordel, Jandira. Só que não mexia com ela, uma mulher tão bonita devia ter parceiro. Era morena bem brasileira mesmo, devia ter uns 35 anos, cabelos
longos, pernas grossas e bumbum grande e certinho. Na primeira vez que estive lá pedindo algo ela disse: “O que um rapaz tão jovem e bonito está fazendo aqui?”. Com o tempo ficamos um pouco amigos. Um dia pedi a ela papel e caneta, ela riu: “Vai escrever uma cartinha para minhas meninas?”. “Não, vou escrever uma poesia”. “Ai, que chique. Um escritor na minha boate?”. Respondi: “Escritor não, escritor é Carlos Drumond de Andrade. Eu sou um rabiscador de sonhos”. E escrevi um poema que começava assim:
ESSE MUNDO COLORIDO ENGANANDO MEUS OLHOS
QUERENDO ME IMPOR QUE SOU FELIZ,
MAS É MEU PEITO QUEM DIZ;
QUERIA UM MUNDO EM BRANCO E PRETO
PARA EU COLORIR DA FORMA QUE QUERO.
NADA DO QUE ME DIZEM SE APROXIMA DO QUE VENERO
DO QUE DESEJO.
NÃO QUERO ESSAS LUZES, ESSE ARCO-ÍRIS.
QUERO APENAS UM BEIJO.
Era sempre assim, letras fortes, revoltadas, mas melancólicas, pedindo socorro. Lia ao mesmo tempo o mundo encantado de Alice no país das maravilhas e Peter Pan, e Romeu e Julieta, o maior clássico literário da história. Sim, o maior clássico literário da história é uma tragédia. Temos tendência à tragédia. Morrer por amor! Eu também já quase morri por amor, não por suicídio, mas por intensidade. Outra bobagem, já sanada. Tudo que fazia e faço é intenso. Se amo é para valer. Se rio, é bem alto. Se choro, choro em qualquer lugar. Se tenho raiva, fico irreconhecível. Quando recito, levito. Saio do chão.
Mas voltando ao poema, não me lembro do resto porque ela leu e quis ficar. “Ai que bonito, menino! Dá para mim?”. Se dei poesia até para os calhordas, porque não a uma prostituta, uma mulher tão bacana? O que tem de diferença entre as prostitutas e os calhordas? Pensando bem, tem sim. Pelo menos, elas dão prazer. Os calhordas só dão desgosto.
Só avisei. “Não vá jogar fora depois, hein? Não faço poesia pra jogar fora”. Ela apelou: “Está pensando que sou o quê? Sou prostituta, mas tenho dignidade”. Achei interessante a expressão “prostituta, mas com dignidade”. É que às vezes associamos qualidades como honestidade, dignidade, aos cargos que as pessoas ocupam, pelas roupas que vestem. Então um gari, uma prostituta, não podem ter esses quesitos?
Numa de nossas conversas ela falou. “Você trata as prostitutas como damas. Elas não estão acostumadas com isso”. Respondi dando mais um gole. “Não conheço damas, nem prostitutas. Conheço mulheres”. Ela avisou: “Está bem, mas não vá criar problemas para minhas meninas, viu? Prostituta apaixonada não dá certo, só dor de cabeça”.
Ela deve ter falado isso por causa da Janete, que um dia deitada no meu peito na cama, revelou: “Você me faz ter vontade de voltar para casa dos meus pais. Você é tão legal. Se eu pudesse deitaria com você, até de graça... mas vivo disso”.
Felizmente essa fase passou rápido, um dia na frente do espelho vendo meu rosto horrível após um quase coma alcoólico por causa de vodka, falei: “Deixe de ser idiota, cara!.”. E parei. Hoje bebo moderado. Mas de música ainda gosto demais. Passo meus domingos ouvindo. Continuo respeitando os bêbados, os mendigos, os loucos e as prostitutas.

Chamar a vida da prostituta de vida fácil é tão injusto e mentiroso, quanto chamar a mulher de sexo frágil.

Nota: O texto foi retocado hoje, mas o original foi criado em 1995.