ESCREVER É DIVINO!

ESCREVER É DIVINO!
BONS TEMPOS EM QUE A GENTE PODIA VOAR. ERA MUITO BOM SER PASSARINHO.

CAMINHOS DE UM POETA

CAMINHOS DE UM POETA
Como é bom, rejuvenescedor e incentivador para o poeta, poder olhar para trás e ver toda a sua caminhada literária, lembrar das dificuldades, dos incentivos e da falta deles, da solidão de ser poeta e do diferencial que é ser poeta. Olhar para trás e ver tudo que semeou, ver uma estrada florida de poesias, e dizer: VALEU A PENA! O poeta vai vivendo, ponteando, oscilando, e nem se dá conta da bela estrada que escreveu. Talvez ele não tenha tempo porque o horizonte o chama, e o seu norte é... escrever... escrever... escrever. Olho hoje para trás... não foi fácil, mas também ninguém disse que seria. E eu sabia que não seria, ser poeta não é fácil, embora seja lindo. Contemplo a estrada que eu fiz, e digo com orgulho quase narcisista: Puxa... como é linda minha estrada!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

FOLIA DE REIS ( Texto Origem Wikipédia)




Folia de Reis é um festejo de origem portuguesa ligado às comemorações do culto católico do Natal, trazido para o Brasil ainda nos primórdios da formação da identidade cultural brasileira, e que ainda hoje mantém-se vivo nas manifestações folclóricas de muitas regiões do país.
Origens
Na tradição católica, a passagem bíblica em que Jesus foi visitado por reis magos, converteu-se na tradicional visitação feita pelos três "Reis Magos", denominados Belchior, Baltazar e Gaspar, os quais passaram a ser referenciados como santos a partir do século VIII.
Fixado o nascimento de Jesus Cristo a 25 de dezembro, adotou-se a data da visitação dos Reis Magos como sendo o dia 6 de janeiro que, em alguns países de origem latina, especialmente aqueles cuja cultura tem origem espanhola, passou a ser a mais importante data comemorativa católica, mais importante, inclusive, que o próprio Natal.
Na cultura tradicional brasileira, os festejos de Natal eram comemorados por grupos que visitavam as casas tocando músicas alegres em louvor aos "Santos Reis" e ao nascimento de Cristo; essas manifestações festivas estendiam-se até a data consagrada aos Reis Magos. Trata-se de um tradição originária de Portugal que ganhou força especialmente no século XIX e mantem-se viva em muitas regiões do país, sobretudo nas pequenas cidades dos estados de Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Goiás, dentre outros.
Na cidade de Muqui, sul do Espírito Santo, acontece desde 1950 o Encontro Nacional de Folia de Reis, que reúne cerca de 90 grupos de Folias do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. É o maior e mais antigo encontro de Folias de Reis do país. O evento é organizado pela Secretaria de Cultura do Município e tem data móvel.
Canções
Em algumas regiões as canções de Reis são por vezes ininteligíveis, dado o caos sonoro produzido. Isto ocorre quase sempre porque o ritmo ganhou, ao longo do tempo, contornos de origens africanas com fortes batidas e com um clímax de entonação vocal. Contudo, um componente permanece imutável: a canção de chegada, onde o líder (ou Capitão) pede permissão ao dono da casa para entrar, e a canção da despedida, onde a Folia agradece as doações e a acolhida, e se despede.

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Dia 6 , dia de Reis. Me lembro quando criança, minha mãe assistindo com muito respeito, eu segurando a mão dela. Esse respeito passou pra mim. Folia de reis, também faz parte da minha poesia.
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Folias de Rei
Composição: Chico Anísio e Arnaud Rodrigues
Ai,andar andei, ai como eu andei
E aprendi a nova lei
Alegria em nome da rainha e folia em nome de rei
Alegria em nome da rainha e folia em nome de rei

Ai,mar marujei, ai eu naveguei
E aprendi a nova lei -
Se é de terra que fique na areia o mar bravo só respeita o rei BIS

Ai voar voei, ai como eu voei
E aprendi a nova lei
Alegria em nome das estrelas e folia em nome de rei
Aegria em nome das estrelas e folia em nome de rei

Ai eu partirei, ai eu voltarei, vou confirmar a nova lei
Alegria em nome de Cristo, porque Cristo foi o rei dos reis
Alegria em nome de Cristo, porque Cristo foi o rei dos reis

REUNIÃO DO FIM DO MUNDO


Preocupados com o fim do mundo,
chefes das grandes nações,
reuniram uma grande mesa
para discutir as aflições,
do planeta, da gente e da natureza.
O medo até tentou falar
mas, a violência impediu, combinada com a intolerância.
A esperança, muito tímida,
calou diante da ignorância
que gritava, bradava
repetindo o mesmo enredo
que deu errado desde cedo.
O sucesso coitado, ficou esquecido.
O sorriso foi vencido.
A verdade, na última cadeira.
A mentira, na primeira
A amizade nem teve vez
quando falou a insensatez.
A hipocrisia falou.
O egoísmo discursou.
Então o silêncio abraçou a alegria:
Vamos embora.
Convidaram todo mundo...
menos a poesia.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

QUARTO COLORIDO


Deita comigo e nem sei seu nome
Suga-me, me consome.
Como se eu fosse a última mulher,
a última vez, a última flor.
O que vem buscar de mim
não está em mim.
Sou permitida para a vida,
proibida para o amor
Sou sua, sou de todos, de qualquer um,
mas esse quarto colorido
com tantas lembranças juntas
não passa de um lugar comum
para tolas perguntas.
Quanto vale o seu dinheiro que eu preciso?
Quanto vale meu sorriso?
Esse quarto é minha rua.
A rua é meu quarto
Só lhe peço, homem estranho.
Que saia farto, desfrute o que quiser
Ainda que eu seja a última
Trate-me como mulher.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Minhas canções favoritas( Rose choque Rita Lee)

Nas duas faces de Eva
A bela e a Fera
Um certo sorriso de quem nada quer.
Sexo frágil não foge a luta
e nem só de cama vive a mulher.

Por isso não provoque,
é cor de rosa choque
Oh-Oh-Oh
Não provoque É cor de Rosa
Choque, não provoque...
é cor de rosa choque
Por isso não provoque
É cor de rosa choque

Mulher é bicho esquisito
Todo mês sangra
Um sexto sentido maior
que a razão
Gata Borralheira você é princesa
Dondoca é uma espécie em extinção

Por isso não provoque,
é cor de rosa choque
Oh-Oh-Oh
Não provoque É cor de Rosa Choque
não provoque...
é cor de rosa choque
Por isso não provoque
É cor de rosa choque

Nota: Rita Lee tem tantas, mas escolhi essa pra homenagear as mulheres

O JOGO DA VIDA





Eu tinha 12 anos, 6ª série. Havia uma certa rivalidade entre dois colégios. O colégio dos menos favorecidos, vamos assim dizer, e o colégio dos de mais sorte. Nosso professor de educação física era Sargento Verçosa, aposentado da polícia, durão, mas a meninada gostava dele. Um certo dia, chamou a garotada no centro do gramado e disse: “Meu amigo, professor do colégio São Francisco, está desafiando para um jogo daqui a trinta dias. Vai valer troféu. Vocês estão afim?”. Todos gritaram em coro. “ Estamooos”. E ele prosseguiu, de pé, no círculo de meninos sentados. “Mas ele mandou um recado para vocês. Mandou dizer que aqui só tem mariquinhas.Vocês são homens ou mariquinhas?” Todos de novo. “Homeeens!”. E ele depois de dizer outras coisas de incentivo encerrou: “Então cuidem-se, pra gente acabar com aquele timeco deles”. E nos liberou.
Só se falava no tal jogo. Enfim chegou o grande dia. O estádio não tinha arquibancada, só alambrado separava as torcidas dos “ craques”. As torcidas, formadas na maioria pelas meninas dos colégios, alguns pais e mães, faziam barulho, disputando quem gritava mais. De vez em quando a gente ouvia algo tipo. “Nossa, cada gatinho”. Aí que a gente fazia mais pose ainda. Não me lembro de todos os nomes, mas alguns marcaram aquele dia. Eu, na ponta esquerda. Não era um grande jogador, mas, corria muito. Nas aulas, enquanto os outros davam oito ou nove voltas em torno do gramado, eu dava doze. Serginho, nosso goleiro. Cláudio, grandalhão, repetente da escola. Gostava de dar cascudos nos coleguinhas. Menos em mim, deve ser porque eu lhe dava umas dicas de aula, talvez até mesmo para não ser importunado por ele. Mas sentia que ele gostava de mim. E os dois irmãos, João Luís e Zé Roberto. João Luís, era mais forte, loiro, cabelos abaixo dos ombros. Zé Roberto, era magro, loiro também, cabelos cobrindo os olhos, nariz comprido, fino, queixo quadrado. Era o rebelde da turma, dava muito trabalho às professoras. Os dois jogavam muito bem, mas o Zé jogava mais. Só que eram da mesma posição. O treinador optou por escalar o João, talvez pela rebeldia do Zé.
Enfim o jogo. Não começamos muito bem, parecíamos nervosos, nada dava certo.Terminamos primeiro tempo perdendo por 1x0. Levamos maior bronca no vestiário
Começa segundo tempo. Não demoramos muito a empatar. Num escanteio cobrado da direita,Cláudio, o grandalhão fez de cabeça. Alívio e alegria. Mas o time deles era superior. Saíam com a bola na maior tranqüilidade. Era clara a superioridade deles, mas tinham até quadra poliesportiva, enquanto nós, só tínhamos aula num campo de futebol amador. Mais ou menos com uns vinte e cinco minutos de jogo, eles desempataram numa falha incrível de nosso goleiro. Pensei. “Vamos tomar goleada”. João Luís estava muito bem, mas não dava sorte. Bateu uma bola na trave e o goleiro deles estava seguro. Mas num dado momento, João entrou fulminante na área, driblou dois e foi derrubado. Pênalti! Mas perdemos nosso melhor jogador, João saiu com a canela completamente inchada. Até pensamos que tinha quebrado, mas felizmente não. Entrou Zé Roberto. Cláudio pegou a bola, mas pedi a ele para eu cobrar. Quando ajeitava ele me disse no ouvido. “Fecha os olhos e chuta forte. É nossa chance de empatar. Se você errar, vou te matar!”. Acho que essas palavras ao invés de incentivar, me perturbaram, desconcentraram. Pois chutei para fora. Foi um baque, fiquei desolado. Lá atrás, Serginho se virava como podia. O técnico me vendo abatido, me chamou à beira do gramado.Me disse pra não desanimar que jogo é assim mesmo. Mandou que eu jogasse mais à esquerda pois estava muito embolado e que o lateral delesera mole, pra jogar em cima dele”. Ele acertou. Joguei sempre no fundo, bem aberto e enfim consegui ganhar na corrida dele e cruzei a bola alta. Me lembro da bola vermelha e branca viajando, até cair certinha para Zé Roberto, que com maestria, dominou no peito, deixou ela rolar pelo corpo e cair aos seus pés. Tomou distância de um passo e quando todos pensavam que ia dar um chutão, bateu por cima de todos. O goleiro ainda resvalou os dedos, mas não evitou. Alegria geral, gritamos muito. Nossa torcida que estava calada agitou de novo. Mas não estava fácil. Chutaram bola na nossa trave, Serginho ainda fez uma defesa incrível. “Faltam 10 minutos. Vamos ganhar desses caras.”. Gritou nosso treinador.
Aí veio a euforia total. Faltando cinco minutos apenas, uma falta para nós, na risca da área, em Zé Roberto, que não deixavam parar em pé. Ele até quis brigar. O treinador gritou. “Deixa o Carlos bater.”. Eu tinha chute forte porque brincava com bolas adultas e quando lidava com bolas infanto-juvenis levava vantagem. E acho que ele também estava me dando uma chance de me recuperar do pênalti perdido. Tomei distância kilométrica. Fechei os olhos e pensei. “Tem que ser agora”. Soou o apito. Corri e chutei forte. Vi a bola entrando, mas o danado do goleiro tirou com a mão esquerda. Porém, não foi muito feliz. A bola parou logo no pé de quem? Zé Roberto, que de primeira a devolveu. Ela deu umas três quicadas e foi morrer mansinha no canto direito. Gooool! A virada. 3x 2 para nós. Loucura! Êxtase! Gritaria! Foram os três minutos mais longos de nossas vidas. Mas acabou. Corremos para cima do técnico que rolava no chão, sufocando-o. Ainda me lembro do goleiro deles chorando, mas pensei. “Paciência, jogo é jogo”. Outras cenas me marcaram.
Zé Roberto, herói do jogo, carregado nas costas. Cláudio, o capitão, recebendo o troféu. João Luís nem ligava pra canela enfaixada, só pulava. E o técnico nos pagando caixas e mais caixas de picolé e refrigerante.
Muito anos depois, num de meus passeios a Ipatinga, já quase pegando estrada de volta, parei num bar para comprar uma balas. Mania de motorista. Andando perto do ponto de ônibus, um rapaz sentado de cabeça baixa, pediu: “Ô amigo, me dá um cigarro”. Respondi quase parando. “Não fumo, companheiro”. Ele insistiu. “Mas você está indo para o bar, pode comprar”. Hesitei, mas acabei pensando. “Cigarro não é presente que se dê a alguém, mas é o vício dele, fazer o quê? ”. E disse. “Pode vir que eu pago”. Ele me seguiu. Depois de pegar minhas balas, autorizei ao dono lhe ceder um cigarro e quando me virei, com quem me deparei? Zé Roberto. Mesmo cabelo fininho cobrindo os olhos, só mais ralo, mal vestido e umas falhas de dente. Ele me olhou, olhou... e disse. “Eu acho que te conheço. Só não sei o nome”. Falei. “Sou eu mesmo, Zé Roberto... o Carlos. Do CENEC. Como vai seu irmão?”. Cabisbaixo, me respondeu. “Meu irmão morreu faz dois anos. Acidente de moto. A gente já não se falava mais”. “Que chato!”, lamentei. “E você o que anda arrumando?”.
“Eu? Eu estou assim do jeito que está me vendo. Bêbado, f..., drogado. Só durmo se tomar um monte de porcarias. Meu irmão morreu sem falar comigo. Meu pai não fala comigo. Minha irmã só fala o necessário. Só minha mãe fala, porque é mãe”. Me chocou muito ouvir aquilo e respondi. “Você precisa de tratar, se internar numa clínica. Procura alguma
instituição, uma igreja sei lá. Você tem um ponto a seu favor, reconhece que precisa de tratamento, isso é um passo.Você é novo ainda.Pense nisso”. “Vou pensar”. Mas não senti muita firmeza nas palavras dele. Despedi-me. “Zé Roberto. Já é noite, preciso ir. Até um dia”. “Valeu pelo cigarro”, com um sinal de OK.
Quando estava me preparando para entrar no carro, do outro lado da rua, ele gritou. “Ei,Carlos. Você se lembra daquele jogo?”. Eu ri surpreso. “Claro que sim. Foi demais, hein?”. “Demais? Acabamos com aqueles metidos”. Minimizei. “Ah, foi apenas um jogo de futebol”. Ele discordou. “Que nada. Foi a vitória da humildade contra a arrogância. E de virada, hein?”. Aproveitei para cutucá-lo. “De vez em quando a gente precisa dar uma virada na vida Zé”. Se percebeu a cutucada, disfarçou emendando. “E você ainda perdeu um pênalti. Mas foi você quem me ajudou a fazer meus dois gols”. Pensei comigo. “Gostaria muito de poder ajudá-lo a fazer outro gol... mas no jogo da vida”.
Dei um último tiau e entrei no carro meio frustrado de encontrar um ex-amiguinho daquela forma, sentindo-me impotente diante da situação.
Nunca mais o vi. Espero que tenha dado mais uma virada em sua vida.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Pérolas de minha infância IV ( Amor de criança)


Sempre digo que devemos tomar cuidado com o que falamos ou fazemos a uma criança, pois, penso que ela vê tudo numa dimensão maior. No seu mundo fantasioso, tudo ganha proporções enormes. E assim pergunto: Quem de nós nunca fantasiou um namoro quando criança? Eu tive Amélia. Amélia era uma menina lindinha. Branca, de cabelos muito pretos, curtinhos, cortados rente à orelha. As pontas eram puxadas para perto da boca. Sobrancelhas bem definidas, vivas e cílios enormes lindos. Para completar seu charme, uma pinta na bochecha direita. Nos olhávamos tempo todo na aula e no recreio, porém quase não nos falávamos. Devia ser timidez de criança. O máximo que aconteceu, foi um dia, quando me deu uma maçã no recreio, e de propósito, deixei meus dedos escorregarem em sua mão, mas ela recuou, tirando logo. As meninas antigamente eram mais acanhadas. Francisco, meu amiguinho viu e me gozou depois: “Aeeê Carlos. Ganhando maçã, hein? Quem sou eu”. Como não queria que aquilo se espalhasse falei: “Que isso, rapaz? A menina é minha amiga”. E ele insistiu: “Amiga? Ela te olha tempo todo. Chega na menina, rapaz. Ela está afim”. Aí me entreguei. “Não é bem assim. Essas coisas têm hora”. Ele ironizou. “Você é um homem ou um rato?”. Eu acabei rindo e disse: “Sou homem, mas na hora fico mesmo do tamanho de um rato”.
Francisco, era um menino moleque demais, e tínhamos mania de na hora do recreio, trocar os cadernos de todos. Na volta do recreio era aquela confusão. Um dia ele me chamou, eu fui, mas com outra idéia. Olhar os cadernos da Amélia. Estava escrito mais ou menos assim na contra-capa: “Meu namorado chama Carlos... Soares, sobrenome igual ao meu. Ele mora no Bom Retiro. Ele é bonito e inteligente, mas é muito bobo, porque nunca fala comigo. Eu também tenho vergonha, mas sou menina, e menina não pode ser pra frente. Ele é bagunceiro, mas eu gosto dele. Eu acho que amo ele”. Mostrei para Francisco que quis zoar, mas o repreendi e ele parou e ainda me ajudou. “Não falei? Ela gosta de você”. Chega nela”.
Chegou fim do ano e faríamos primeira comunhão. Escola e igreja eram muito ligadas. Depois da missa ia ter um bailinho com comes e bebes na escola. Ainda me lembro de todos de branquinho, vela na mão, entrando na igreja. Minha mãe nunca foi chegada a festas e da missa voltou para casa.
Alguns casaizinhos dançavam, menos eu e ela. Francisco me empurrando: “Vai lá, vai lá. Chama a menina pra dançar. Ah, se fosse eu”. “Calma, estou tomando coragem. Daqui a pouco eu vou”. E ele: “Daqui a pouco acaba a festa e vai ficar chupando dedo e a menina com raiva... vamos comer cachorro quente por enquanto”. E eu. “Está doido? Vou beijar a menina com boca suja?”. Fomos, mas não comi nada até a hora de dançar. Eu numa fome danada.
Minha distância para ela no salão era de uns seis metros, mas parecia seis kilômetros. Enfim fui. “Oi, Amélia. Você está a fim de dançar?”. “Estou sim”, estendendo o braço charmosinha toda. Eu nem sabia dançar direito, mas sabia que eram dois pra lá, dois pra cá, pois via meus irmãos e irmãs dançando. Estive tenso no começo e acho que ela também, mas depois fomos nos soltando, até falamos coisas bobinhas de criança, tipo. “Você mora onde mesmo?”. “Você tem mais irmãos?”. “Festa boa, né?” Dançamos umas cinco músicas até que ela falou. “Vamos parar um pouco, estou cansada”. Respondi, dando uma de Don Juan mirim. “Aqui está muito quente. Vamos lá fora respirar um pouco”.
Fomos e sentamos na parte cimentada do jardim, atrás de nós uma fonte. Depois de falarmos mais bobeirinhas, fiquei calado muito tempo e enfim investi pegando na mãozinha dela. “Amélia, posso te dar um beijo?”. Ela ficou ainda mais branca e se calou um tempão. Agora era eu quem morria de vergonha. “Ai que resposta demorada. Vou sair correndo daqui”. Depois de longos minutos, me olhou e respondeu com meiguice. “Pode, mas não quero agarramento, senão empurro você”. Lembrei de como os galãs das novelas faziam para beijar. Me senti um verdadeiro Tony Ramos. Viraria o rosto, começaria suave, abrindo os lábios, abraçando ela e depois ia aumentando. Que nada. Máximo que saiu foi um selinho tímido. Os dois ficaram mudos. Eu estava completamente trêmulo e suando frio. Depois de um novo longo silêncio ela disse. “Vamos lá pra dentro, Carlos?”. Sem responder nada, só acenei que sim com a cabeça e fomos.
Ainda dançamos outras, sem trocar uma palavra mais.
Era fim de ano, vieram as férias, e mesmo ainda rolando olhares no ano seguinte, aquele romancinho depois foi acabando, fantasia que era. Pura e inocente, como realmente têm de ser as crianças.

Os anos passaram e passaram e passaram. Já com uns 30 anos parei numa padaria pra tomar café. Depois de tomar, fui pagar e quem estava no caixa? Amélia. Mais gordinha como eu, alguns fios de cabelo branco como eu, óculos caindo sobre o nariz. Levei um pequeno susto e fiquei olhando fixo pra ela, não por nada, mas queria que ela me reconhecesse pra gente rir de tudo. Pois, não me reconheceu nada. Estranhou, eu ali parado, olhando “Bom dia senhor. O senhor deseja alguma coisa?”. “Bem... é... sim... eu... quero pagar um café com leite”. Respondeu: “1, 50, se tiver trocado, agradeço”. Tirei dois reais, ainda olhando pra ela, ela franziu a testa curiosa, me deu o troco e vendo que eu não saía, perguntou: “O senhor deseja mais alguma coisa? Está passando bem?”. “Não, não. Obrigado”. E saí. Na porta olhei pra trás e ela levantou os dois braços para funcionária dela num gesto de “ não entendi nada”. E completou. “Só dá maluco”. Claro que fiquei um pouquinho frustrado. Ah... mulheres! Como entendê-las?

Minhas canções favoritas ( Debaixo dos caracóis dos seus cabelos)

De Roberto Carlos, poderia citar várias outras canções como, DETALHES, OUTRA VEZ, CAVALGADA(que eu amo), mas lembrei dessa que Roberto e Erasmo fizeram para Caetano Veloso que estava fora do país, exilado pela ditatura.

DEBAIXO DOS CARACÓIS DOS SEUS CABELOS (ROBERTO CARLOS E ERASMO CARLOS)
Um dia a areia branca seus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos a água azul do mar
Janelas e portas vão se abrir pra ver você chegar
E ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma historia pra contar de um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um instante
As luzes e o colorido
Que você vê agora
Nas ruas por onde anda,
na casa onde mora
Você olha tudo e nada
Lhe faz ficar contente
Você só deseja agora
Voltar pra sua gente
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos...
Você anda pela tarde
E o seu olhar tristonho
Deixa sangrar no peito
Uma saudade, um sonho
Um dia vou ver você
Chegando num sorriso
Pisando a areia branca
Que é seu paraíso.
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma historia pra contar de um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um instante
/////

Anos mais tarde Caetano o rebribuiu com outra belíssima canção:

FORÇA ESTRANHA( CAETANO VELOSO)
Eu vim um menino correndo
eu vi o tempo brincando ao redordo caminho daquele menino,
eu pus os meus pés no riacho.
E acho que nunca os tirei.
O sol ainda brilha na estrada que eu nunca passei.
Eu vi a mulher preparando outra pessoa
o tempo parou pra eu olhar para aquela barriga.
A vida é amiga da arte
É a parte que o sol me ensinou.
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou.
Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha.
Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista
o tempo não pára no entanto ele nunca envelhece.
Aquele que conhece o jogo, o jogo das coisas que são.
É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.
Eu vi muitos homens brigando. Ouvi seus gritos
Estive no fundo de cada vontade encoberta,
é a coisa mais certa de todas as coisas.
Não vale um caminho sob o sol.
É o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol.
Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.