
Comecei mal, plagiando o Teló, não que ele seja ruim, é que plagiar é coisa feia, mas o Chacrinha já dizia, “no Brasil nada se cria, tudo se copia”, então resolvi dar uma plagiada também. Tive um sonho engraçado, aliás, sempre tenho sonhos engraçados, já tive até sonho que continuou no outro dia. Já viram isso? Sonho com requintes de novela... “continua no próximo capítulo” rs rs. Sonhei que compus uma música dessas de verão que rodam cinco ou seis semanas, com rimas pobres e previsíveis, e o cara fica milionário. Não sei nem o nome do cantor que estava no sonho, só sei que o cara estourou, vendeu muitos discos, e meu sucesso misturou-se ao dele, todo mundo queria saber quem era o autor do novo hit, e comecei a dar entrevistas nas rádios e nas TVs, gente me parando nas ruas pedindo autógrafos, eu recebia cartas e mais cartas de fãs, as emissoras me disputavam tanto quanto a ele, estava maior briga de audiência. No domingo principalmente, eu passava o dia todo na TV, de emissora em emissora. O engraçado era que meu cachê não era depositado em conta, me davam dinheiro vivo ali na hora, eu saía com um tantão de dinheiro na mão, nem dava conta de carregar, caíam algumas notas pelo chão, e eu nem me importava. Eu não tinha mais onde colocar dinheiro, tinha dinheiro em cima da geladeira, da TV, no fogão, debaixo da cama, na mesa, nas gavetas. E eu pensava. “Preciso trocar de carro, aquele está velho. Vou comprar um jatinho também, agora sou famoso, tenho me locomover com mais rapidez pra atender tantos compromissos. Claro, um iate também para as folgas... quando tiver, né?”. Porém... sempre tem um porém. Apesar de todo o sucesso algo me incomodava por dentro. Se eu dissesse que não gosto de dinheiro, seria mentiroso, dinheiro é necessário, abaixo de Deus, é ele quem nos dá conforto, saúde, viagens etc. O que a gente não pode é se deixar escravizar por ele, colocando-o como centro de tudo. Acontece que a letra vinha de encontro ao que eu sempre falo sobre cultura, que não gosto de banalidades, de futilidades, de mídia forçada etc. Entrei numa crise de consciência, e pensava coisas assim. “Drummond deve estar chateado comigo”. “Se Fernando Pessoa me visse, ia me xingar todo”. “Como vou ter coragem de ler Ariano Suassuna, Jorge Amado, Camões, Saramago, depois disso?”. De antemão, nada tenho contra o artista que ganha dinheiro, se está ganhando é porque estão comprando, então o artista e os marqueteiros têm seus méritos. Mas eu estava justamente praticando o que sempre reneguei, virei um escravo da mídia. Olhei aquele monte de dinheiro à minha volta e fiquei me perguntando se valia a pena tudo aquilo, deixar meu caminho reto de poeta, que eu chamo de meus trilhos dos quais nunca quero me descarrilhar... por causa de dinheiro. Não, a minha poesia não é para isso, ela me alimenta sim, mas ao meu espírito. Acordei quando um empresário chegou e disse. “Você tem que fazer outra música, esta já está acabando”. Amassei uma nota de cem reais na mão, e disse a ele com calma. “Sinto muito, eu não sei compor assim”. Fui feliz pro meu trabalho, dele sim, tiro o dinheiro que preciso para viver. Mas uma coisa eu digo... a letra está todinha na minha cabeça, é bem engraçada com toques leves de sensualidade, e confesso que estou doidinho pra registrar na Biblioteca Nacional e mandar pro Neymar. Já imaginaram... Carlos e Neymar juntos no Programa do Faustão? Por favor, me belisquem, acho que estou sonhando de novo rs rs .



