

( Brad Pitt que se cuide )
Minha mãe sempre disse. “Não quer, tem quem quer”. A garota morava a uns três quarteirões do meu e a gente começou a flertar. Passava do outro lado da rua jogando olhares e charmes e afastava-se num andar malicioso. Trabalhava numa loja de calçados e eu queria muito comprar um tênis recém lançado, claro que fui unir o útil ao agradável. Cheguei, ela praticamente atropelou as outras vendedoras. Muito cheia de graça, deu bom dia, perguntou o que eu desejava. Pensei.”Ah se eu pudesse falar”, rs rs. Respondi apontando para o tênis na vitrine, adiantei que era número 39 ( pé delicado), ela foi rapidinho, pôs no balcão, e sempre sorridente pediu meus documentos e contracheque. “Em quantas vezes você vai querer?”. Pensei de novo. “Ah se eu pudesse falar”, é evidente que se referia às prestações. Falei. “Três vezes”. Ainda meio abestalhado, tirei os documentos e entreguei-a. Simpaticamente pediu licença, subiu uma escada onde tinha um letreiro “CREDIÁRIO”. Passados uns dez minutos desceu, agora não mais sorridente, com semblante pesado e mau humor. “Seu crédito não foi aprovado”. Minha cara foi ao chão. Que vergonha! Fosse só a vergonha estava tudo bem, ela mudou toda comigo, foi grosseira, passou a me tratar com desdém. Fui embora mais chateado com isso do que pela vergonha do crédito não aprovado. Ela me decepcionou, nunca espero isso das pessoas. Não nasci com essas maldades. O tênis era caro, eu até tinha o dinheiro para comprar, mas tinha um bocado de despesas em casa. Dali uns dias ela virava o rosto pro outro lado, nunca mais me cumprimentou. Aquilo foi mexendo comigo. Ora, além de modesto, eu era um dos rapazes mais bonitos do bairro ( na minha opinião só perdia para dois), quem aquela menina pensava que era? Resolvi sacrificar e voltei para comprar o tênis. Cheguei lá mais cheiroso que Brad Pitt, passei pelas vendedoras, fui até ela que me cumprimentou com um obrigatório bom dia. “Quero comprar aquele tênis”. Ela estranhou e disse. “Mas você não esteve aqui semana passada?”. Deduziu que meu crédito não seria aprovado de novo. “Sim, mas eu quero o tênis e estou com pressa”. Vacilou uns segundos, mas como funcionária, não podia deixar de me atender e meio nervosa pediu os documentos. Enfiei a mão no bolso, tirei o dinheiro, abri em leque e respondi calmamente. “Não serão necessários documentos, vou levar à vista, mas quero outra vendedora, pois você atende muito mal ”. Uma que parecia ser gerente, interveio. “Algum problema?”. Respondi. “Não. Quero levar um tênis, só que desejo outra vendedora”. A garota ficou branca. Rapidamente veio outra, comprei e paguei. No cantinho, a gerente em murmúrios parecia lhe chamar atenção. Saí com o tênis debaixo do braço cantando. “lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé”. Depois fiquei meio com remorso, não sou de fazer isso, mas aquela garota merecia uma lição. As pessoas têm de gostar de mim pelo que sou e não pelo que tenho. Com meus defeitos e qualidades, defeitos principalmente, pois amar o que é belo, é muito fácil.


