
( imagem google )
Adianto aos corações moles como eu que essa é uma história com final triste. Eu tinha uma radiola. Linda! Enorme, na horizontal ocupava meia parede ou mais! Dourada! Marca ABC! Tinha um som incrível. Pegava rádios de quase todo o Brasil com uma nitidez impressionante. Eu gostava muito de rádio, às vezes ouvia programações de SP, Manaus, Paraná, RJ, enfim, um monte. Começavam a aparecer os aparelhos três em um, a radiola começava a ser do passado, já era relíquia, e vez ou outra, alguém mais velho vinha oferecer dinheiro. Eu recusava de pronto, afinal era nela que eu passava meus lp’s, e minha casa era ponto de encontro da turma. Eu chegava do trabalho, fosse às 14h, fosse às 20h, já tinha amigos me esperando na porta. “Ô Carlos, viemos ouvir música, pôe aquela, passa aquela outra”. Às vezes comia no meio fio, ouvindo e conversando com eles. Alguém gritava da janela vizinha. “Ô Carlos, repete essa aí pra mim”. E eu repetia quantas vezes fossem necessárias, gostava de agradá-los. Algumas vezes, com sono, pedia à minha mãe para dizer que eu não estava. Que nada! Invadiam a casa e iam ao meu quarto me acordar. Não tinham som em casa? Claro que tinham, até sofisticados, mas todo mundo queria ouvir minha radiola. Ou seria pela minha companhia? Minhas irmãs podiam mexer à vontade, desde que a mantivessem sempre limpinha, e estava mesmo sempre brilhante. Minha radiola não tinha preconceitos, passava qualquer música. A missa, as caipiras de minha mãe, A Voz do Brasil que ela gostava ainda do tempo de meu pai, as românticas de minhas irmãs, as variadas dos meus amigos e meus rocks. Um dia senhor Mário passou. “Gostei do bolero que estava tocando aí ontem. Dá pra repetir?”. E eu. “Sinto muito, era rádio, seu Mário. Se o senhor comprar, eu passo”. Mas dava 22h eu desligava ou abaixava por causa da lei do silêncio, eu era respeitador.
Um dia por motivos financeiros, vendi a radiola. Vi um anúncio no jornal: “Sou colecionadora. Compro antiguidades... etc etc... pago bem”. Por coincidência, ou sei lá se fiz meio de propósito, ninguém viu a compradora, um senhora
rica, muito bonita ir à minha casa buscar já um pouco tarde da noite. Eu nem pus a mão, não quis olhar, dois empregados dela pegaram, ela me deu dinheiro e se foi. Uma boa grana, dava para pagar boa parte das contas. No outro dia, chegando do trabalho, tinha três amigos na porta esperando e um disse. “Trouxe um LP pra gente ouvir, só de internacionais”. Falei que não tinha mais radiola e duvidaram. Entraram na sala para verificar e mesmo vendo só a marca dela na parede, não acreditaram. Contei por quê, ficaram tristes e solidários comigo. Nos dias seguintes, eu sem graça, sentado no meio fio via lá esquina, um ou outro ainda desavisado chegando com lps na mão e quando eu contava, ficavam chateados, não comigo, mas por mim. Teve um que disse. “Se tivesse falado, a gente fazia uma vaquinha”. Quase chorei sentindo o amparo do amigo. “Esquenta não, meu camarada. A vida da gente não se resume a uma coisa só. Uma radiola, é só uma radiola. Vocês não estão aqui?”. Sei que a gente não pode se apegar demais às coisas materiais, mas só eu sei o que senti dizendo isso. Talvez nem tanto pela radiola, acho eu eu tinha era medo de que minha casa se esvaziasse. Felizmente isso nunca aconteceu.