
( imagem google )
Gosto de observar as pessoas simplórias. Acho que são mais felizes. Eu também gostaria de não pensar muito. Digo que são mais felizes porque não veem a maldade ao seu redor, não percebem ambição, nem inveja. Ah! A inveja: prima irmã do ódio. Mas vamos falar de coisas engraçadas. Já citei aqui um ex chefe, mas não falei do seu lado extremamente gozador. Era sagaz, nos pegava sempre desprevenido com charadas e pregava várias peças, como interceptar a Kombi lá na curva, com almoço dos funcionários, cujas marmitas eram personalizadas, mas ele trocava as etiquetas com nomes. Vez em quando alguém ligava para fornecedora. “Pôxa. Já falei mil vezes que não gosto de quiabo”. Fora que de vez em quando comia a carne de alguém. Eu sabia que era ele e mesmo sabendo, eu também caía nas suas. Um dia entrei na cantina, fui fritar um ovo pra comer com pão e enquanto eu flertava com ZEZÉ, funcionária, ele perguntou. “Posso temperar o ovo pra você?”. Respondi que sim, ele saiu, esperei esfriar um pouco e quando fui comer... argh. Ele tinha colocado açúcar. Fui até a sala dele pra “xingar”, o danado trancou a porta e ficou lá escondidinho. Às vezes olhava-o afastando pelo saguão, imitandi o andar da pantera-cor-de- rosa ( tem hífen?). Um dia me pegou totalmente envolvido datilografando coisas( poesia como sempre) e veio com ar sério. “ É, poeta. Já sou cinquentão. A gente pensa que já viu de tudo na vida, mas vai vivendo e aprendendo. Vi uma cena ontem que jamais havia imaginado”. Parei tudo já impressionado. “Que foi? Conta logo”. Continuou. “Não sei se devo”. Apelei. “Ah não. Começou, termina”. Fez mais um leve suspense. “Vi seis policiais tentando algemar um cara e não conseguiram”. “Nossa”, admirei. “O cara devia lutar kung fu, karatê”. E ele. “Não, seu pato. Não tinha os dois braços, era deficiente”. Depois de me zoar, disse. “Pega a Mundica”. Mundica era uma das faxineiras, essa sim, simplória de tudo. Solteirona, morava sozinha com a mãe doente. Tinha uns problemas de nervos, depressão e quando estava assim, modéstia a parte, só eu e Zezé, podíamos falar com ela. Brincava assim com ela. “Mundica, você anda muito nervosa. Namora comigo que vai ficar bem calminha. Eu já moro sozinho mesmo”. Fez logo o Nome do Pai. “Você está doido, menino? Primeiro que você já tem namorada, que é a Zezé e gosto muito dela. Segundo, que é muito novinho e não sou papa anjo. E depois, que é muito enrolado. Pra arrumar enrolado, fico sozinha”. Algumas vezes ia das noites direto pro trabalho, punha mão no nariz dela, dizendo. “Cheira minha mão, Mundica”. Aí eu podia correr porque o rodo vinha nas pernas. “Sai pra lá, seu porco”. Era só brincadeira, a mão estava limpa. Quando Zezé terminou comigo, ela tentou interceder numa conversa entre elas. Disse que eu era moleque, mas um “moleque adorável”. Que minha inconsequência não fazia mal a ninguém. Que gostaria de ser igual a mim, pois deixara muitas coisas passarem na vida. Coitada, ela não sabia que eu também deixei. Zezé me falou isso depois, foi um término sem traumas e ficamos bons amigos. E eu também não era assim tão inconsequente. Nunca faltei a um dia de trabalho. Só era meio inconstante com a vida, porque ela também foi comigo, por isso de vez em quando esnobei mesmo essa roda gigante.... ou seria montanha russa? Bem, cheguei até ela. “Mundica. Se eu contar uma coisa você ai ficar de queixo caído. Estou chocado!”. Estressada como sempre, pôs logo a mão no coração. “Fala logo, menino. Dando susto na gente”. Enrolei um pouco e depois de deixá-la bem nervosa,
falei. “Ontem vi oito policiais ( aumentei o número) tentando algemar um rapaz e não conseguiram”. A reação foi igual à minha. “Nossa! Então ele era bom de briga, hein?”. Respondi no ato. “Não, bobona. Era deficiente, não tinha os dois braços”. E quando me preparava pra gargalhar, me cortou. “Que covardia! É por isso que não gosto de polícia. Não perdoam nem um pobre dum deficiente”. Fui desfazendo meu sorriso, meio perdido, ficando sem graça. Acabei rindo de mim mesmo. Até hoje uma dúvida me acompanha. Será que ela na sua simplicidade não entendeu a piada e assim desmontou minha astúcia? Ou foi mais esperta do que eu pensava e me deu o troco? Ou ainda... será que o tal chefe já não a havia prevenido de que eu faria a pegadinha? Contei pra ele, ele me zoou demais, mas jurou que não. De qualquer forma, fui buscar lã e voltei tosquiado.





