Sempre fui maravilhado com mundos encantados das fábulas e estorinhas infantis. Adorava o tradicional... “era uma vez num reino distante...”. Eu pensava. “Num reino distante estão acontecendo coisas”. Ou. “O reino é distante, mas lá as coisas são possíveis”. Eu sempre fui um menino diferente. Claro que brincava igual os outros, de bola, de pipa, de bolinha de gude, de pique. Mas às vezes no meio da criançada, eu me afastava, sentava numa pedra qualquer e ficava igual gente grande pensando, meditando. Quase sempre algum menino me chamava à atenção. “Tá dormindo, Carlos?”. Lá no meu bairro, bem no fim mesmo, tinha uma espécie de barranco enorme, quase um abismo, onde a gente brincava de escorregador. Já bem longe passava o rio. E depois do rio, a floresta. Gostava de ficar ali sozinho, sentado, contemplando. Passava horas, desenhando e escrevendo frases bonitas na terra. Eu já era um poetinha. Tinha dia que voltava quase de noitinha.
Sobre os mundos encantados, destaco dois em especial. “Alice no país das maravilhas”, o único livro que já li duas vezes, fora as vezes que gostava de ler só trechinhos esporadicamente. Gostava de Alice, por causa do espelho. Sempre lidei muito com espelhos, seja nos meus momentos de viagens íntimas, tristonhas e narcisistas, de vaidade, arrumando o cabelo me dizendo que eu era lindo... ou mesmo nos momentos de brigar comigo mesmo quando fazia burradas. Era no espelho que eu me dizia as coisas e era no espelho que eu sonhava também. Eu me imaginava num país de maravilhas, onde as chances fossem iguais e todos os sonhos fossem possíveis. Mas meu preferido era Peter Pan. O menino que se recusava a crescer. Que apenas abria os braços e voava para aonde queria. Quantas vezes me deu vontade de decolar daquele abismo, sobrevoar aquela floresta, fazer plim plim estalando os dedos como meu herói mirim. Uma Sininho do meu lado( sempre uma presença feminina) jogando em mim o pó mágico da esperança e da ousadia. Eu só não entendia ou não gostava muito é de chamarem de “terra do nunca”.Se tudo era possível por que chamar de “ nunca”? Isso me frustrava um pouco, pois pensava. “Primeiro me deixam sonhar, depois dizem que é nunca”. Felizmente prevalecia o espírito sonhador e aventureiro de Peter Pan. Quanto mais diziam pra eu não sonhar, mais eu sonhava. Quem me podava, não sabia que na verdade estava me injetando mais ânimo e força. Como Peter Pan, acho que eu também não cresci muito, mas não foi porque me recusei a crescer, acho que isso já nasceu inserido em mim. Além do mais tem gente que gosta do meu jeito.
Agora vou contar um sonho que tive que aparentemente não tem muito a ver com o que falei acima, mas tem. No sonho, estava uma noite chata e quente demais. Já era tarde e eu não dormia. A tv não tinha nada, aliás tinha.Um monte de coisas que não me diziam nada. Comecei a pensar nela, tão distante, uma saudade angustiante. Queria ela ali na minha cama, pra gente dormir abraçados, mas como se estava tão longe? De repente, minha janela que devia dar para o quintal, dava exatamente para o quarto dela. Ela estava ao mesmo tempo tão distante e tão perto.Era só esticar o braço. Eu a pude ver, linda em sorrisos, escovando os cabelos compridos, sentada em sua cama. Comigo, tinha uma bolsa dela. Dentro da bolsa aberta pude ver uma caixinha do tamanho de um porta-joias e estava vazia. Parecia esperar algo de mim. Pensei. “Vou devolver a bolsa a ela, mas com uma surpresa.Vou escrever EU TE AMO, na aba que fecha a caixa. Quando abrir vai ler e gostar”. Escrevi bem grande e fui caminhando, carregando a bolsa rumo à janela. Ainda pude ver seu sorriso me recebendo, mas quando toquei no parapeito... acordei. Virei-me ainda deitado e vi que minha janela dava é para o quintal mesmo. Levantei-me. Tomei água gelada, pois de real no sonho, só mesmo o calor, e a saudade, claro. Voltei à janela pensando. “Como eu gostaria de ser Peter Pan agora, estalar os dedos, fazer plin plin e voar para o quarto dela!”. Mas no nosso caso seria e será... a terra do sempre. Jamais gostei da palavra nunca.
ESCREVER É DIVINO!
BONS TEMPOS EM QUE A GENTE PODIA VOAR. ERA MUITO BOM SER PASSARINHO.
CAMINHOS DE UM POETA
Como é bom, rejuvenescedor e incentivador para o poeta, poder olhar para trás e ver toda a sua caminhada literária, lembrar das dificuldades, dos incentivos e da falta deles, da solidão de ser poeta e do diferencial que é ser poeta. Olhar para trás e ver tudo que semeou, ver uma estrada florida de poesias, e dizer: VALEU A PENA! O poeta vai vivendo, ponteando, oscilando, e nem se dá conta da bela estrada que escreveu. Talvez ele não tenha tempo porque o horizonte o chama, e o seu norte é... escrever... escrever... escrever. Olho hoje para trás... não foi fácil, mas também ninguém disse que seria. E eu sabia que não seria, ser poeta não é fácil, embora seja lindo. Contemplo a estrada que eu fiz, e digo com orgulho quase narcisista: Puxa... como é linda minha estrada!
segunda-feira, 9 de março de 2009
quarta-feira, 4 de março de 2009
08 DE MARÇO- DIA INTERNACIONAL DA MULHER
A VOCÊ, MULHER...
Que alguém um dia erroneamente chamou de sexo frágil.
Que sabe ser ao mesmo tempo delicada e ágil,doce e guerreira.
Valente e sensível.Que desvenda o incompreensível.
Você que nasceu Eva,mas,rebelde em si, não parou aí.
Viveu tantas outras...esteve na guerra de Helena,nas fogueiras de Joana D’arc
no enigma de Mona Lisa...foi Maria e foi Madalena.
.Você foi todas em uma. Foi uma em todas.
Ainda é mártir de todos os dias,mas tem tempo para o charme.
Você que demora a se vestir, porque a beleza é que não pode esperar .
Você que faz compras demoradas...porque gosta de desfilar.
Sim,desfilar aos olhos do homem impaciente,insensível
que não percebe que todo esse aparato visual
é um presente para ele contemplar.
Você que eu chamo de meu amor,
de esposa e amiga,
de mãe e de filha,de amada e amante.
Você que foi ponte para Deus enviar o Seu filho...esse foi seu maior brilho.
Você que tem a capacidade divina de transformar a dor do parto em amor.
Sua maquiagem não fere sua imagem,não é máscara.
É só um retoque no seu encanto, que nem precisa de retoque...mas você é mulher
e quer sempre mais.Tem sido sempre assim não é mulher?
A você...
Entoem cânticos, prosas e versos.
Rendam-se cantadores e poetas do universo.
As cancelas e preconceitos não foram fáceis,mulher
mas,já dizia um poeta...tudo muito fácil não tem muita graça.
Só a sua graça!!!
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DIA INTERNACIONAL DA MULHER- EM 08 DE MARÇO DE 2009
Que alguém um dia erroneamente chamou de sexo frágil.
Que sabe ser ao mesmo tempo delicada e ágil,doce e guerreira.
Valente e sensível.Que desvenda o incompreensível.
Você que nasceu Eva,mas,rebelde em si, não parou aí.
Viveu tantas outras...esteve na guerra de Helena,nas fogueiras de Joana D’arc
no enigma de Mona Lisa...foi Maria e foi Madalena.
.Você foi todas em uma. Foi uma em todas.
Ainda é mártir de todos os dias,mas tem tempo para o charme.
Você que demora a se vestir, porque a beleza é que não pode esperar .
Você que faz compras demoradas...porque gosta de desfilar.
Sim,desfilar aos olhos do homem impaciente,insensível
que não percebe que todo esse aparato visual
é um presente para ele contemplar.
Você que eu chamo de meu amor,
de esposa e amiga,
de mãe e de filha,de amada e amante.
Você que foi ponte para Deus enviar o Seu filho...esse foi seu maior brilho.
Você que tem a capacidade divina de transformar a dor do parto em amor.
Sua maquiagem não fere sua imagem,não é máscara.
É só um retoque no seu encanto, que nem precisa de retoque...mas você é mulher
e quer sempre mais.Tem sido sempre assim não é mulher?
A você...
Entoem cânticos, prosas e versos.
Rendam-se cantadores e poetas do universo.
As cancelas e preconceitos não foram fáceis,mulher
mas,já dizia um poeta...tudo muito fácil não tem muita graça.
Só a sua graça!!!
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DIA INTERNACIONAL DA MULHER- EM 08 DE MARÇO DE 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
UM RECADO ÀS MUSAS

(IMAGEM VANLUCHI.BLOGSPOT.COM)
Esse texto vai ficar pra lá de esquisito, mas vai assim mesmo. Também nunca fui muito preso a padrões. Em dois poemas meus, eu exalto a musa colocando-a ao nível do poeta ou até mais. Eu digo.. “o poeta não é maior que a musa, é Mona Lisa, num sorriso maroto quem me diz”. No caso específico de Mona Lisa, reparemos o quanto ela ficou famosa ao nível do grande Da Vinci.. Não só como uma grande obra em si, mas como uma grande musa. Existem alguns boatos sobre ela. Uns dizem que ela nem existiu. Outros dizem que é o próprio Da Vinci, que seria homossexual e a teria projetado na tela, como sendo ele. Isso não me importa muito. O fato é que o sorriso enigmático esta lá. Por pouco a musa não superava o artista. Claro que Da Vinci tem outras grandes obras.
Ao longo de minha vida tive algumas musas. Sempre precisei delas. Zezé, a mais simpática. Morena forte, quase negra, de pernas grossas, torneadas e lisas, boca carnuda,pele brilhosa.Vivia dizendo que ia me mudar, ainda que não fosse para ela. Acabou desistindo e virou minha amiga. Quando a flagrava me olhando eu brincava. "Não adianta ficar me olhando, foi você quem terminou". "Não posso mais olhar um amigo?", ela respondia. Mirany, a mais meiga. Branquinha, olhos claros, cabelo enrolado curto. Acho que foi a que mais me amou. Marinês, a mais linda,alta, magra, cabelos longos, parecia manequim... mas era casada. Ia dar um problemão. Eu era inconsequente mesmo, mas parei a tempo. Outra que deu um problemão foi Selene. O ex namorado era violento e queria me pegar. Um dia sem alternativa de pra onde correr, disse a ele: "se quer brigar, vai brigar sozinho, porque eu não sei brigar. Pode começar a bater. Depois de me socar à vontade, convença-a de que a ama”. O que eu disse o deixou sem ação, virou as costas e nunca mais me importunou. Elça, loirinha, baixinha, sorridente, a mais ingrata. Lucinda, a mais prática, materialista e eu tão voado. E outras que me lembro com carinho. Todas elas, tanto as que terminei, como as que terminaram comigo se despediram dizendo. “Jamais vou te esquecer”. Eu achava e acho isso tão bacana, mulheres diferentes, de épocas diferentes dizendo a mesma coisa. Mas eu sei o por quê disso. Porque as tratava sempre de forma igual. Sempre cavalheiro com elas, gentil, prestativo. A musa no nível do poeta. Odiava e odeio piadas machistas do tipo. “Mulher gosta de apanhar”. Eu dizia. “Só se for a sua mulher, porque mulher com quem ando, não gosta”.Eu também não as esqueci, todas a seu tempo, foram importantes para mim.
Ah... mas o poeta não é perfeito. Ele dá o amor, que quer receber. E quer receber o amor que dá. Então que as musas fiquem atentas, porque nada dói mais num poeta que quando a musa não lhe percebe, quando ele pensa haver uma indiferença. O poeta não é um fingidor, como disse um grande mestre. O poeta é muito sincero. É sim, um pouco exagerado, pra ele tudo é platônico, atômico, mas nada de fingidor. Troca de musa às vezes, não por ser volúvel, é porque precisa de uma sempre. O poeta passa sempre uma imagem de intelectual, de forte, guerreiro, mas nem sempre é. É frágil como cristal. Como pétala que cai ao chão na primeira brisa. Linda... porém caída.
Sempre que não tive musa, escrevi para a solidão. Mas não quero escrever para a solidão, quero escrever para mulheres.
Quem escreve vai entender o que vou dizer. Todo poeta tem suas próprias poesias preferidas. Tem as mais bonitas, outras nem tanto. As românticas, as amargas, as mal humoradas, as singelas e até engraçadinhas. E tem aquelas íntimas, pessoais, com as quais o poeta se identifica mais, não sendo necessariamente as que o público gosta.
O poema que escrevi há quatro dias (ENTRE A FLOR E O VULCÃO), é para minha musa atual... ainda bem que ela está atenta... embora não tenha comentado muito, do jeito que eu gostaria. Só que ela está cheia de crédito e estou muito feliz com ela.
02 de março de 2.009. 02:45h da manhã.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
ENTRE A FLOR E O VULCÃO



(IMAGEM luisalavenere.blog.uol e baixaki.com.br)
Encante-se!
Levante-se!
Ecoe! Navegue! Entregue!
Voe! Soe!
Fale! Exale!
Exploda!
Seja plena, toda!
Veja as flores nos campos, as estrelas.
Emoções... por quê detê-las?
Tudo que desabrocha, que resplandece,
Que brilha, que aparece,
é lindo, é formoso
A simplicidade de uma flor que se abre
é tão intensa como um vulcão nervoso,
que jorra, que vai à forra
num mar de sensações, de lava
que lava os temores de nossos corações.
O fogo do vulcão é tão lindo!
O que parece ser assustador
muitas vezes pode ser o fogo do amor.... que vem vindo.
Então inflame, ame...
busque-me... chame.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
RESPEITÁVEL PÚBLICO


Ah! O circo. O circo é uma das coisas mais espetaculares que o homem já criou. Nem sei como começou, um dia vou pesquisar. Gosto de saber dessas coisas. Ainda me lembro quando os carros passavam anunciando que o circo havia chegado. A molecada, inclusive eu, correndo atrás, para ver de perto o elefante, leão, macacos, dentro das jaulas. Aí era só esperar. Daí uma semana estava tudo armado. Algumas vezes eu gostava de ver os homens montando tudo, gostava de ver o esforço deles e pensava: “Que trabalhão! Eles devem gostar do que fazem. Montar e desmontar uma coisa desse tamanho não deve ser fácil”.
Dias antes de o show começar era um alvoroço. Os meninos dividiam as opiniões. Uns queriam ver os malucos do globo da morte em suas motocicletas. Outros queriam ver o elefante. O macaquinho que andava de bicicleta. A girafa. O mágico. De mágico nunca gostei muito, me passava impressão que estava me enganando. Acho que era porque eu fixava os olhos tentando descobrir o segredo, não conseguia e ficava com raiva.Mas eu gostava mesmo era do palhaço. A maquiagem já me encantava. Eu já vivia lendo estorinhas de heróis mascarados e via no palhaço mais um herói, só que sem armas ou espadas, mas com risos. Com piruetas e cambalhotas. Com piadas. No dia seguinte ele contava as mesmas piadas, mas a gente ria de novo. E assim porque eu já tinha cabecinha de poeta, via alguma tristeza, uma nostalgia por baixo da maquiagem, assim como os heróis dos quadrinhos, que não podem se revelar, até se apaixonam, mas precisam ficar em silêncio. Tinha vontade de falar pro homem-aranha: “Ô homem-aranha fala pra Mary Jane que você é o Peter Parker, o repórter atrapalhado e que a ama. Que atrás dessa máscara tem um homem comum que tem anseios e fraquezas, que ri, chora e sonha, salva a todos e se esquece de si mesmo”. Ou para o superman: “Para de disfarce superman. Fala pra Louis Lane, que você é o bobo do Clark Kent. Que esses músculos não são nada”. “E você Batman. Adianta tanto mistério e riqueza se é um solitário?”. Enfim eu via isso no palhaço e ficava me perguntando. “Como ele é na vida real. Será que tem filhos? Como é o rosto dele? Será que na vida real ele é feliz assim mesmo? Tem namorada? Gosta de futebol?”. Indagações de uma jovem cabecinha, mas só sei que simplesmente adorava. Minha mãe tinha que se virar para me dar dinheiro pra matinê. Um dia, para arrumar dinheiro, vendi tanto picolé que o dono até assustou quando cheguei na sorveteria com rosto todo vermelho de sol, camiseta no ombro, suor escorrendo e pedindo água. “Menino, sua mãe vai brigar comigo pensando que estou explorando vocês”. Pouco me importou, eu só queria ver o circo.
Não sou tão velho, estou numa de melhores fases de minha vida, aparentemente estou muito bem de saúde, mas sou de um tempo em que as crianças faziam seus próprios brinquedos. Eu mesmo fazia meus carrinhos de madeira. As bonecas das meninas não eram Barbies, eram de pano ou de cabelo de milho. Um tempo em que a gente brincava de pique. Tempo em que disputávamos queimada, meninos contra meninas. Tempo em que as pessoas se falavam nas esquinas. Sou o contra o progresso? Claro que não. Só que não precisamos ser escravos dele. Que bom que temos o celular, tv a cabo, carro, ipod, dvd e outros tantos recursos tecnológicos que facilitam sim a nossa vida. Não quero ficar preso à fita cassete ou ao vinil, mas também penso que automatizamos o mundo e fomos juntos com ele, robotizamos tudo, até a nós mesmos e não percebemos. Vivemos procurando alienígenas, seres estranhos no espaço e nós mesmos é que somos tão estranhos e alienados. O curioso é que tantas facilidades deveriam nos proporcionar mais tempo. E no entanto... cadê ele... o tempo?
Escrevi esse texto hoje, 19 de fevereiro de 2009 com dois propósitos:
Um... homenagear o primeiro palhaço negro do Brasil, que é de Minas Gerais, da cidade de Pará de Minas . Seu nome, Benjamim de Oliveira (1870/1954). É tema da escola de samba São Clemente, da divisão de acesso do Rio de Janeiro. Eu não sabia, vi anteontem, de madrugada, a reportagem e achei muito bonita a história. Além de pra lá de diferente é um exemplo de luta. Um palhaço negro. Não é demais?
Um pouco de história...
Benjamin Oliveira viveu no início do século XX. Ele levou o teatro para o picadeiro e é considerado o criador do circo-teatro brasileiro. Mauro Quintaes avisa que, por isso memso, o público pode esperar por um desfile teatralizado. Ele enxerga semelhanças entre o palhaço e a São Clemente.
- Assim como a escola, ele enfrentou dificuldades e preconceitos. Ele teve que se mascarar de branco para ser grande. Às vezes, a São Clemente também precisa se mascarar para ter uma outra aparência e poder crescer.
É. Pode ser.
(fonte O GLOBO)
( fonte das imagens: cifraantiga3.blogspot.com e africaeafricanidades.wordpress.com)
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
UM DIA DE ELVIS

Marcelo, desde que éramos crianças gostava muito de me desafiar. Ou era nas bolinhas de gude, ou no futebol, ou pra saber qual pipa ia mais alto. A minha perdia porque eu ficava mais maravilhado de vê-la no alto pra lá e pra cá enfeitando o céu, do que propriamente sumir nele. Assim como meus sonhos que gosto de ver no alto, mas controlados, sem perder de vista. Nada é mais belo que uma pipa no ar e os olhos de um menino brilhando. E o coração de um homem batendo.
Os desafios de Marcelo continuaram na adolescência e juventude. Era bom amigo. Ele mesmo se autodesafiava sempre. Porém um dia houve algo meio inusitado. Eu o aguardava terminar de se arrumar, vendo tv sentado no sofá de sua sala. De repente na reportagem mostraram cenas de Elvis Presley dançando eletricamente e eu comentei: “Como esse Elvis dançava! Dá vontade de dançar também. Não dá pra ver o Elvis dançar e ficar parado”. E ele riu: “Agora vai me dizer que dança igual ao Elvis”. “Claro que danço. Por que não? E bem”. Respondeu, aí sim , com gargalhada. “Ai, ai, eu ganho pouco, mas me divirto. Não me faça rir. Então se prepara que dia 30 vai ter o baile dos anos 60, quer apostar como você não dança?” Respondi : “Apostar não porque não gosto de apostas. Costuma a gente ganhar a aposta e perder o amigo”. “Sem problema”, disse ele. “Não é aposta. Se você imitar o Elvis eu te pago dez cervejas. Se não imitar, te zoar já vai ser bom demais. Agora vamos embora”.
Chegou enfim o dia. O clube se chamava Olímpico. Havia um outro, mas não gostávamos, tinha muito playboyzinho e as meninas do Olímpico eram mais divertidas. Ficava a uns 08 kilômetros do nosso bairro, mas fomos a pé, nada de carona ou ônibus. Aliás, fui eu que inventei isso. Falava para a turma que a pé era mais divertido”. Quando íamos de ônibus também era bom porque eu ia cantando na última cadeira do ônibus. O motorista que quase sempre era o mesmo, reclamava quando eu não ia. “O cantor não veio hoje?”. Todo mundo caracterizado, meninas de saias rodadas, rapazes com brilhantina no cabelo, olhares James Dean. Até eu que gostava de ser do contra. Já que ia imitar o rei do rock, precisei colocar uma calça branca mais justa, uma camisa também branca de gola levantada. Menos o cabelo, esse estava cuidadosamente enrolado. Eu passava uma hora ajeitando. O baile estava super legal. Os rock’s alegres dos anos 60. La Bamba, Bill Halley e seus Cometas. Beatles. Depois passaram pras baladas românticas dos 70. Como não dançar Do You wanna dance? Ou Massachussets, do Bee Gees. Ou San Francisco, de Scott Mackenzie, quase um bolero. Não vivi a época, mas cresci ouvindo. Eu gostava de dançar com a Rita, uma amiga negra muito divertida, que dançava muito bem e me ensinava passos novos. Vivia com a mão no meu ombro ou com o braço laçando minha cintura, como se fosse uma namorada. Eu brincava. “Tem um monte de gatinha olhando para mim, querendo se aproximar e você atrapalhando. Se quer namorar comigo fala logo”. Ela respondia. “Sabe o que acho bom em você, Carlos? É a sua modéstia”. A gente se gostava muito. Quando passou Jet'aime , uma música francesa de 1972, romântica, quase pornográfica, Verinha veio saltitante para meu lado; “Ah, Carlos. Dança essa comigo?”. Eu respondi na maior cara safada. “Verinha, não me leve a mal. Mas essa eu gostaria de dançar com uma estranha”. “Por quê estranha?”. Falei maliciosamente. “Porque é uma música pra dançar assim...”, fiz o gesto com as mãos, “ sarrando, esfregando, passando a mão”. Ela me deu um soco de mosquito no peito. “Ah, seu safado!”. E saiu. Mas foi só brincadeira. Sempre respeitei muito minhas amigas. Sempre me dei muito bem com as mulheres. Seja mãe, irmãs, amigas, sobrinhas. Gosto muito das mulheres. Quando tinha meus problemas era com elas, em qualquer época, com quem eu mais falava. Tive poucos amigos homens bons para isso. Mas eu era meio protetor delas também. Eu dava o carinho na medida exata de minha carência. De vez em quando, porque era tarde, acompanhava uma até em casa. Depois voltava sozinho. Os outros rapazes já tinham ido. Andava por ruas escuras por cinquenta minutos até meu bairro e de madrugada. Eu acreditava que jamais uma coisa ruim pudesse me acontecer. E continuo acreditando. Uma vez Martinha disse: “Você não existe”. O engraçado é que elas ficavam torcendo pra eu não arranjar namorada, porque não queriam me “perder”, expressão delas. Eu falava: “Vocês são mui amigas. Preciso de uma namorada”. Uma falou brincando: “Eu posso namorar com você, aí você fica no meio da gente. E eu sempre com piadinhas disse: “E você acha que eu ia ficar com você no meio desse bolo de gente? Ia levar pros escurinhos, escondidinho”. “Credo, Carlos. Você só pensa naquilo”. Arrependido e com pena da Verinha, procurei-a para dançar. Ela não quis. “Eu não. Você disse que vai fazer aquilo”. Coloquei a mão na cabeça. “Ai, meu Deus do céu. Era brincadeira. Vem, vamos dançar”. Ela que era muito bobinha e tímida virou o rosto. “Quero mais não”. Era a pureza da turma. Concordei enfim. “Mas não está com raiva, né?”. Ela riu: “Claro que não, bobão”.
Chegou a hora do Elvis. Comecei a dançar. Deve ter sido uns quinze minutos sem parar, sempre de olhos fechados. Só ouvia vozes, uns gritando, outros rindo. Num certo momento, abri os olhos, e o que vi? Um círculo enorme de pessoas à minha volta, eu sozinho no centro do salão, requebrando meus quadris magros. Claro que não podia parar e continuei até a última música. Foi um agito geral quando terminou. Então chegou Marcelo. “Você mereceu as dez cervejas. Quer tomar agora?”. “Eu não. Está louco? Já tomei muita porradinha hoje”. Porradinha, a gente fazia com vodka ou cachaça, dependendo do bolso e do gosto de cada um, misturada com soda limonada, tampava o copo com a mão e batia forte na coxa. Fervia e a gente tomava. Quase sempre molhava a roupa e subia rápido para a cabeça. Um dia, Salvador, olhem o nome do cara. De Salvador não tinha nada, me disse que uma amiga dele comentou. “Esse seu amigo é doidão, hein? Ele fuma o quê?”. E ele: “Fuma nada não ( não mesmo, graças a Deus, nem cigarro). É doido de natureza”.
Estive meses atrás com Rita em Ipatinga, hoje já é senhora, mãe, gerente de uma perfumaria. Os olhos dela brilharam ao relembrar aqueles tempos, em que nos divertíamos sem dinheiro. Quando ia saindo, me perguntou. “E você, já tomou juízo? Respondi: “Procurei na farmácia pra tomar, mas não achei”. Ela balançou a cabeça: “As mesmas respostas enroladas”. Mas tomei juízo sim... aliás, eu já tinha, fazia mais era gracinha para ver as pessoas rirem. Eu gostava um pouco de ser estrela. Por isso me concentrei tanto para viver... o meu inesquecível dia de ELVIS.
Marcelo está muito bem hoje na Austrália. De vez em quando me liga e a gente fica recordando algumas aprontações do bem que fazíamos... essa foi uma delas. Mandei um quadro com um poema meu "AQUELA RUA".Ele disse que está na parede e se sente dentro do poema, porque ele fala exatamente de nossa rua. Das pipas, das bolinhas de gude e dos sonhos.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
GATOS ESCALDADOS
Como chovia! Parecia que ia arrasar o mundo. Só que ele não ligava muito. Andava na chuva despreocupado. Um pouco com pressa sim, mais pelo horário. Não queria chegar atrasado ao show de rock. Avenidas alagadas. Rajadas de vento e trovões. Nada o intimidava. De repente uma garota atravessou a avenida com sapatos na mão, correndo, linadamente molhada e falando alto. “Ei, ei. Você sabe onde tem táxi por aqui?”. Ele também teve que gritar, o barulho da chuva era demais. “Aqui perto tem não garota. Mas ali tem ponto de ônibus”. Ela completou. “Mas pra onde vou não adianta muito o ônibus, vou pro show, chega lá tenho que andar mais”. E ele. “Eu também estou indo e vou a pé e do jeito que nós estamos não adianta muito mais chamar táxi. Vamos andando. A gente vai conversando”. Ela concordou. “Quer saber? Você está certo. Eu só não queria ir sozinha nessa chuvarada”. “Legal”, disse ele. “Só vou parar no bar ali e comprar alguma bebida quente. “Oba! Aí gostei porque está um frio danado”. Comprou e foram andando. À medida que a chuva ia passando podiam conversar melhor. Andaram ainda uma meia hora e nesse tempo, perguntas normais e formais como:”Onde mora?”“.Qual seu nome ““.Trabalha em quê?”. Sempre no bico da garrafa e passando à mão do outro.
O show nem tanto foi bom. O cantor parecia muito bêbado e drogado e não saiu muita coisa, mas para quem é fã, tudo vale. Na saída, já com a chuva bem fininha ele disse a ela apontando para um táxi parado. “Aqui tem táxi”. Ela recusou: “Ah, não. Foi muito divertido vir a pé. A gente pode conversar mais”. O taxista ouviu e disse: “Leve meu cartão, pode precisar um dia”. O rapaz quase sem ver guardou no bolso o cartão. E seguiram. Agora mais lentos. O show acabou. Chuva quase nada. Noite gostosa. Entre tantas perguntas formais, outras nem tanto, ele disse numa forma despistada de saber se ela era livre: “Você é muito bonita para estar indo ao show sozinha. Cadê o namorado?”. “Não tenho mais. Terminamos há uns cinco meses”. Ele investiu. “E quem é o maluco de deixar uma menina bonita?”. “Fui eu que não quis. O cara nem me beijava. Mulher gosta de ser tocada”. E emendou devolvendo a pergunta. “Você também é bonito para estar sozinho. Não tem namorada?”. “Não”. “Que “não” mais seco!”, exclamou a moça. “Ele respondeu ainda seco”.Cachorro mordido de cobra tem medo até de lingüiça. E gato escaldado tem medo de água fria”. Por enquanto não quero. Estou mais para aventuras, mas não ando procurando também. Só se for mesmo alguém muito diferente para eu entrar nessa de novo e não estou com pressa. Amor é bom, mas mete medo”. Segundos de silêncio. A moça foi mais atrevida... ou curiosa. “Vocês transavam?”. Ele disse. “Não. Apenas ficávamos na intimidade quase total, muita carícia mesmo, mas nada de penetrações e talvez tenha sido meu erro. Dei flores demais, levei bombons demais. Telefonei demais. Como você disse, mulher gosta de ser tocada e pode ter faltado algo a mais na hora da intimidade”. Ela perguntou. “Ela era virgem?”. “Sim e eu respeitava isso. Mas eu achava gostoso assim mesmo porque era com amor. Tinha maior cuidado com ela” .“Que diferença e que ironia. Você perdeu porque deu carinho demais e eu reclamando porque não tive. Eu daria tudo para ter um homem assim. Mais emoção e carinho. Mais conversa. Quando falei “ tocada”, era mais nesse sentido. Meu namorado só queria saber de ir direto ao ponto final e eu ficava sempre com uma impressão de carência, de ter sido usada. Não se culpe de nada. Você fez o certo. E digo mais. Ela, já que era virgem, não acho que tenha ficado com sensação de faltar um algo mais. Ela deve ter encontrado um homem muito legal que era você e se assustou, e viu que não saberia cuidar. Pode crer, é por ai”. “Obrigado por suas palavras, amiga estranha. Agora não muito mais estranha”. “Estou no 3º ano de psicologia e tenho tino para perceber quando as pessoas são sinceras, além de instinto de mulher. Você não me parece uma pessoa ruim. Mas também não podemos tirar o direito dela de escolha, não é mesmo?”. “Claro, claro. Por isso eu disse que não quero mais tão cedo porque eu não sei amar diferente, só sei ser assim. E amor pela metade não dá. Às vezes penso que nunca mais vou querer mais ninguém”. “Ah, não”, ela discordou. “Aí não concordo e também não acho que você vai matar dentro de você uma capacidade tão grande de amar. Seria como morrer aos poucos. A gente pode perder as pessoas, não a capacidade de amar”. O rapaz ficou impressionado com a inteligência, sensibilidade e boa cabeça da moça e retribuiu o apoio moral. “Então lhe digo o mesmo. Você é uma garota moderna, mas romântica, sabe das coisas e quer ser feliz. E vai ser, porque você procura, quem procura acha. Com certeza vai encontrar um rapaz ao nível que merece, carinhoso, atencioso”. Ela respondeu. “É, concordo. Por acaso hoje eu encontrei você e gostei muito.Você é muito amigo”.
O assunto foi aos poucos se esgotando dadas tantas perguntas, umas bem íntimas, outras curiosas. Às vezes variavam e voltavam ao início.
Vendo que o local onde se encontraram na ida já tinha passado, ela perguntou. “Você não vai pra casa?”. Ele disse. “Não, vou acompanhar você até a sua. O papo está muito gostoso, inspirador e diria... até sexual”, e riu. “Oh, quanta honra! Obrigadíssima! Viu? Homem bom é isso. Eu também estou adorando esse papo inspirador e até sexual”, e riu também.
Andaram ainda uns cinco quarteirões. Chegaram frente a uma casa grande, quase escondida pelas flores, tudo apagado. Ela disse. “É aqui que me escondo, literalmente. Minha mãe adora flores, ama esse jardim”. Ela em cima do meio-fio, ele no asfalto olhando para ela disse contemplando sua beleza tendo como moldura , as flores do imenso jardim. “Você precisa ir agora? Amanhã é domingo. Fica mais”. Ela pensou, pensou. “Hummm... só porque você veio me trazer fico um pouco com você está bem? Vamos sentar no meio-fio, mas está molhado. Ah, não tem problema, uma noite tão gostosa dessa e vamos molhar o que mais?”.
Sentaram-se e falaram de tudo. Inclusive se acreditavam em amor à primeira vista. Ela disse que sim, mas acredita em engano à primeira vista também. Já ele também disse que sim, pois é no primeiro contato visual que a química acontece. Claro que o conhecimento vem depois. Ele pediu desculpas por perguntar a idade dela, não era muito gentil perguntar isso a uma mulher. Ela disse: “Isso não é uma pergunta indiscreta, é normal, isso é tabu que as pessoas inventam, como, mulher não paga a conta. Mulher é fragilzinha. Mulher não pode cantar homem. Acho isso tudo um saco. Tenho vinte e dois anos. Quer saber mais? Pergunte o que quiser”. Estando mais à vontade ele perguntou no embalo. “E você já cantou ou cantaria um homem?”. A moça pensou e respondeu. “Claro, não com banalização, que isso também não gosto. Mas encontrando um homem bonito, interessante, me insinuo mesmo, senão como ele vai saber que o quero?”.
O rapaz ficou calado por minutos, tentando encontrar um meio de dizer o que estava entalado. Até que ousou, afinal era uma menina moderna, embora sabendo do risco de ofendê-la. “E a mim, você cantaria? Tudo que você disse agora combinou com o que você mesma disse sobre mim ainda no início de nosso papo. Você sem querer me elogiou”. A menina se calou por longos minutos, não longos pelo tempo em si, mas longos pela ansiedade que a pergunta gerou no próprio rapaz que a fez. Sentados lado a lado no meio-fio ela olhou pra ele, cabelos cobrindo um lado do rosto e disse com charme e sedução. “Você está me cantando, seu malandrinho?”. Fitando seus lábios ele respondeu. “Sim”. Se olharam... e se beijaram... suavemente. Depois loucamente. Gulosamente. Repetidamente. De rostos colados, ela disse. “Acho que vamos precisar de um táxi”. Ela mesma tirou do bolso dele o cartão do taxista e riram muito juntos. Correram rápido a um telefone público... e fizeram amor até oito horas da manhã.
Encontraram-se ainda mais algumas vezes e com o tempo foram parando. Talvez porque eram dois gatos escaldados e o amor é bom... mas mete medo.
O show nem tanto foi bom. O cantor parecia muito bêbado e drogado e não saiu muita coisa, mas para quem é fã, tudo vale. Na saída, já com a chuva bem fininha ele disse a ela apontando para um táxi parado. “Aqui tem táxi”. Ela recusou: “Ah, não. Foi muito divertido vir a pé. A gente pode conversar mais”. O taxista ouviu e disse: “Leve meu cartão, pode precisar um dia”. O rapaz quase sem ver guardou no bolso o cartão. E seguiram. Agora mais lentos. O show acabou. Chuva quase nada. Noite gostosa. Entre tantas perguntas formais, outras nem tanto, ele disse numa forma despistada de saber se ela era livre: “Você é muito bonita para estar indo ao show sozinha. Cadê o namorado?”. “Não tenho mais. Terminamos há uns cinco meses”. Ele investiu. “E quem é o maluco de deixar uma menina bonita?”. “Fui eu que não quis. O cara nem me beijava. Mulher gosta de ser tocada”. E emendou devolvendo a pergunta. “Você também é bonito para estar sozinho. Não tem namorada?”. “Não”. “Que “não” mais seco!”, exclamou a moça. “Ele respondeu ainda seco”.Cachorro mordido de cobra tem medo até de lingüiça. E gato escaldado tem medo de água fria”. Por enquanto não quero. Estou mais para aventuras, mas não ando procurando também. Só se for mesmo alguém muito diferente para eu entrar nessa de novo e não estou com pressa. Amor é bom, mas mete medo”. Segundos de silêncio. A moça foi mais atrevida... ou curiosa. “Vocês transavam?”. Ele disse. “Não. Apenas ficávamos na intimidade quase total, muita carícia mesmo, mas nada de penetrações e talvez tenha sido meu erro. Dei flores demais, levei bombons demais. Telefonei demais. Como você disse, mulher gosta de ser tocada e pode ter faltado algo a mais na hora da intimidade”. Ela perguntou. “Ela era virgem?”. “Sim e eu respeitava isso. Mas eu achava gostoso assim mesmo porque era com amor. Tinha maior cuidado com ela” .“Que diferença e que ironia. Você perdeu porque deu carinho demais e eu reclamando porque não tive. Eu daria tudo para ter um homem assim. Mais emoção e carinho. Mais conversa. Quando falei “ tocada”, era mais nesse sentido. Meu namorado só queria saber de ir direto ao ponto final e eu ficava sempre com uma impressão de carência, de ter sido usada. Não se culpe de nada. Você fez o certo. E digo mais. Ela, já que era virgem, não acho que tenha ficado com sensação de faltar um algo mais. Ela deve ter encontrado um homem muito legal que era você e se assustou, e viu que não saberia cuidar. Pode crer, é por ai”. “Obrigado por suas palavras, amiga estranha. Agora não muito mais estranha”. “Estou no 3º ano de psicologia e tenho tino para perceber quando as pessoas são sinceras, além de instinto de mulher. Você não me parece uma pessoa ruim. Mas também não podemos tirar o direito dela de escolha, não é mesmo?”. “Claro, claro. Por isso eu disse que não quero mais tão cedo porque eu não sei amar diferente, só sei ser assim. E amor pela metade não dá. Às vezes penso que nunca mais vou querer mais ninguém”. “Ah, não”, ela discordou. “Aí não concordo e também não acho que você vai matar dentro de você uma capacidade tão grande de amar. Seria como morrer aos poucos. A gente pode perder as pessoas, não a capacidade de amar”. O rapaz ficou impressionado com a inteligência, sensibilidade e boa cabeça da moça e retribuiu o apoio moral. “Então lhe digo o mesmo. Você é uma garota moderna, mas romântica, sabe das coisas e quer ser feliz. E vai ser, porque você procura, quem procura acha. Com certeza vai encontrar um rapaz ao nível que merece, carinhoso, atencioso”. Ela respondeu. “É, concordo. Por acaso hoje eu encontrei você e gostei muito.Você é muito amigo”.
O assunto foi aos poucos se esgotando dadas tantas perguntas, umas bem íntimas, outras curiosas. Às vezes variavam e voltavam ao início.
Vendo que o local onde se encontraram na ida já tinha passado, ela perguntou. “Você não vai pra casa?”. Ele disse. “Não, vou acompanhar você até a sua. O papo está muito gostoso, inspirador e diria... até sexual”, e riu. “Oh, quanta honra! Obrigadíssima! Viu? Homem bom é isso. Eu também estou adorando esse papo inspirador e até sexual”, e riu também.
Andaram ainda uns cinco quarteirões. Chegaram frente a uma casa grande, quase escondida pelas flores, tudo apagado. Ela disse. “É aqui que me escondo, literalmente. Minha mãe adora flores, ama esse jardim”. Ela em cima do meio-fio, ele no asfalto olhando para ela disse contemplando sua beleza tendo como moldura , as flores do imenso jardim. “Você precisa ir agora? Amanhã é domingo. Fica mais”. Ela pensou, pensou. “Hummm... só porque você veio me trazer fico um pouco com você está bem? Vamos sentar no meio-fio, mas está molhado. Ah, não tem problema, uma noite tão gostosa dessa e vamos molhar o que mais?”.
Sentaram-se e falaram de tudo. Inclusive se acreditavam em amor à primeira vista. Ela disse que sim, mas acredita em engano à primeira vista também. Já ele também disse que sim, pois é no primeiro contato visual que a química acontece. Claro que o conhecimento vem depois. Ele pediu desculpas por perguntar a idade dela, não era muito gentil perguntar isso a uma mulher. Ela disse: “Isso não é uma pergunta indiscreta, é normal, isso é tabu que as pessoas inventam, como, mulher não paga a conta. Mulher é fragilzinha. Mulher não pode cantar homem. Acho isso tudo um saco. Tenho vinte e dois anos. Quer saber mais? Pergunte o que quiser”. Estando mais à vontade ele perguntou no embalo. “E você já cantou ou cantaria um homem?”. A moça pensou e respondeu. “Claro, não com banalização, que isso também não gosto. Mas encontrando um homem bonito, interessante, me insinuo mesmo, senão como ele vai saber que o quero?”.
O rapaz ficou calado por minutos, tentando encontrar um meio de dizer o que estava entalado. Até que ousou, afinal era uma menina moderna, embora sabendo do risco de ofendê-la. “E a mim, você cantaria? Tudo que você disse agora combinou com o que você mesma disse sobre mim ainda no início de nosso papo. Você sem querer me elogiou”. A menina se calou por longos minutos, não longos pelo tempo em si, mas longos pela ansiedade que a pergunta gerou no próprio rapaz que a fez. Sentados lado a lado no meio-fio ela olhou pra ele, cabelos cobrindo um lado do rosto e disse com charme e sedução. “Você está me cantando, seu malandrinho?”. Fitando seus lábios ele respondeu. “Sim”. Se olharam... e se beijaram... suavemente. Depois loucamente. Gulosamente. Repetidamente. De rostos colados, ela disse. “Acho que vamos precisar de um táxi”. Ela mesma tirou do bolso dele o cartão do taxista e riram muito juntos. Correram rápido a um telefone público... e fizeram amor até oito horas da manhã.
Encontraram-se ainda mais algumas vezes e com o tempo foram parando. Talvez porque eram dois gatos escaldados e o amor é bom... mas mete medo.
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